“Sabe aquela criança de uns cinco anos, que tem a bochecha grande e que é uma fofura? Pois bem, ela tem até quatro vezes mais chance de crescer e se tornar um adolescente ou um adulto obeso”. Esta triste e alarmante informação vem da coaching de emagrecimento, Patrícia Oliveira, que foi gordinha desde a infância e com 24 anos chegou a pesar 127Kg. Após muitos altos e baixos, incluindo uma cirurgia bariátrica, hoje ela busca saúde e qualidade de vida para ela e seus pacientes.
E os números referentes a obesidade chocam ainda mais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente no Brasil, a cada quatro horas uma pessoa morre por complicações da obesidade. Somos o 3º país com mais obesos no mundo. Uma em cada três crianças são obesas, sendo que na década de 80 esse número era de 1/6. E mais, 60,9% das crianças menores de dois anos já foram apresentadas aos biscoitos, doces e açúcares. Estima-se que 7,3% das crianças menores de cinco anos estão acima do peso, sendo as meninas as mais afetadas, com 7,7%. E essa obesidade, pode ser herança de uma gestação nada saudável. Uma grávida obesa, tem 80% de probabilidade de ter um filho obeso, mesmo que ele não tenha nascido assim, poderá se tornar.
Mas o que está acontecendo para alcançarmos dados atuais tão assustadores? Segundo Patrícia Oliveira, vivemos um período de transição nutricional, que começou nos anos 90, e fatores como a urbanização, a mulher cada dia mais presente no mercado de trabalho e consequentemente com menos tempo em casa e na cozinha contribuem para estes resultados. Além destes, a correria diária cada vez maior faz com que a gente consuma muitos industrializados, pela praticidade oferecida. Infelizmente desembalamos mais, quando deveríamos descascar mais.
A endocrinologista, Dra. Keila Motta, explica sobre os principais perigos de trocarmos os alimentos por produtos alimentícios. “Sabe aquele pacotinho aparentemente inofensivo e saudável que pegamos na prateleira do supermercado? Você já parou para ler o rótulo e a composição dele? Pois bem, a dica de ouro é: mesmo que você não entenda exatamente o que está sendo falado ali, ligue o alerta ou fuja quando identificar nomes que mal consegue pronunciar, que lembram medicamentos”.
Ela ainda reforça sobre a sedução criada pelo marketing e pela publicidade para nos forçar a comprar os produtos. “É difícil, mas não podemos nos deixar seduzir pelos personagens, pelas embalagens, pelos brinquedos dados nos fast foods que tem todo um encantamento, um apelo visual que acaba nos cativando pela emoção e deixamos de racionalizar o fato de darmos esses venenos para as crianças ou mesmo consumirmos. Certamente você já ouviu ou falou a seguinte frase: ‘Meu filho merece o que eu nunca tive, o que nunca comi’. Sinceramente ele não merece, muito menos precisa”.
Confesso que conhecia alguns dados sobre obesidade, mas ter acesso a todos estes me assustaram e me fizeram refletir ainda mais sobre a alimentação aqui em casa, porque é fato que precisamos ser exemplo. Não adianta falar que seu filho tem que comer isso ou aquilo se você não come. Esta construção de hábitos saudáveis precisa ser da casa. As escolhas e a consciência alimentar devem começar no seio familiar, pois desta forma, todos vão entender quando e onde poderão realizar exceções.
Isto também vale para a prática de exercícios físicos, como conta a fisiologista, Cibelly Camena. “Além de incentivar, é possível fazer junto! Hoje lideramos o ranking de sedentarismo infantil. Crianças de três a cinco anos devem se exercitar por 180 minutos ao longo do dia (três vezes por semana) e isso inclui o brincar. A partir de seis anos, já podem praticar exercícios de forma mais intensa, uma hora por dia, cinco vezes na semana, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). O importante é não ficar parado e criar o hábito e o gosto desde cedo”.
Segunda a gestora de uma creche de Vila Velha (ES), Manisa Leão Borges, o papel da escola também é muito importante! “Nós trabalhamos com uma proposta preventiva onde a alimentação equilibrada e saudável é um dos pilares. Hoje, com os alimentos cada vez mais processados e industrializados, vivemos uma época onde a qualidade nutricional do que ingerimos ficou muito duvidosa. Acredito que, por isso, temos tantos casos de obesidade, diabetes, intolerâncias cada vez mais severas, alergias, tudo bastante precoce. Contamos não só com uma nutricionista, mas com projetos de alimentação saudável e horta. Nossos alimentos são orgânicos e os cardápios personalizados”.
E como levar informação às famílias e a sociedade em geral também é uma missão da escola, Manisa Leão buscou parceiros para realizar uma serie de workshops. O primeiro foi sobre obesidade infantil, com os profissionais acima citados, e o próximo terá o tema “Como montar uma lancheira saudável e gostosa”, com a nutricionista Karla Cypreste, dia 03/05.
A questão da obesidade infantil é urgente e acredito que quanto mais falarmos sobre o assunto, mais pessoas vão se conscientizar e poderemos unir forças contra a indústria alimentícia, pois somos todos vítimas do que é vendido para nós. Pesquisas revelam que em até 10 anos no Brasil, 50% da população estará acima do peso, uma verdadeira epidemia de obesidade. Portanto, precisamos travar uma guerra contra esta inimiga, por nós e por nossos filhos, para que tenham uma vida mais saudável, longe da obesidade e de todas as consequências sociais, emocionais e de saúde que ela acarreta. Quem vem comigo? Até a próxima!



