Nina, diante das últimas tristes notícias resolvi escrever pra você. A tragédia que aconteceu em uma escola de Goiânia (GO) me deixou profundamente abalada e me fez relembrar o passado. Eu tentei me colocar no lugar do menino que disparou os tiros e imaginar tudo o que ele passou e que o levou a chegar naquele ponto. Fiz o mesmo exercício em relação aos dois adolescentes que não estão mais entre nós, pois foram tirados de suas famílias precocemente e também sobre os outros que foram atingidos e vão carregar pra sempre este trauma. Pensei nas famílias de todos os envolvidos, quanta dor, quanto sofrimento, e ainda, na comunidade como um todo e na escola. Mas também refleti sobre o meu papel como mãe, com o dever de educar meus filhos e formar cidadãos que respeitam o outro, que amam, que ajudam e que têm compaixão e empatia.
E em toda essa reflexão que eu fiz, me lembrei muito de você, Nina, porque quando estávamos entrando na adolescência, você viveu algo parecido. Na verdade, o motivo do bullying, que ainda nem era chamado assim, foi o mesmo. O menino que disparou os tiros vinha sendo chamado de fedorento por alguns colegas, entre outras coisas. Levaram, inclusive, desodorante dentro da mochila no dia da tragédia, não sei ao certo o objetivo. E você, Nina, também foi chamada assim e sentiu na pele o que é ser motivo de chacota, se sentiu isolada, envergonhada e sofreu muito por isso.
Todos sabemos que os hormônios mudam e mostram toda sua força na adolescência e como uma das consequências, pode aparecer mau cheiro nas axilas, caso os cuidados necessários não sejam tomados. E você era uma menina muito humilde, estudávamos em uma escola pública de um município do interior, com pessoas de todas as classes sociais e instruções. Talvez ninguém tivesse te orientado, talvez seus pais não pudessem comprar um desodorante pra você. Talvez! O que não deixava dúvidas é que a situação começava a ficar constrangedora, pelo menos pra mim. Pra você, certamente bem mais do que isso.
Alguns colegas te zoavam descaradamente, outros faziam de forma velada, mas faziam. Foi então que eu tive uma ideia. Conversei com os meus pais para saber se poderíamos fazer algo pra ajudar e também com a professora de educação física e juntos encontramos uma solução. Para resumir a história, esta profissional, acima de tudo humana, a acolheu, conversou e explicou como se cuidar, as formas básicas de higiene e a importância de usar o desodorante. Como sabíamos que você não teria como comprar, nos juntamos e doamos alguns. Tudo foi feito sem alarde, para que não causasse mais constrangimento. Mas algo precisava ser feito e foi. Talvez se você ler esse texto, vai se reconhecer e saber como tudo realmente aconteceu. Em relação aos colegas que tiveram tal comportamento, foram orientados da forma correta e como o problema foi resolvido, logo a página foi virada. Uma ação simples e com muito resultado. Certamente não resolveu todos os problemas de bullying da escola, do mundo. Mas é preciso intervir, sempre! Deixar pra lá, pode sim resultar em algo muito grave.
E antes que venham com o argumento de que a Nina passou por tudo isso, sobreviveu e não matou ninguém, vamos há alguns pontos: Primeiro quero deixar claro que não acho que sofrer bullying justifique matar alguém, mas pode explicar. E outra. Se o menino tivesse se matado? Estaria tudo certo? Isso é o que mais acontece nesses casos… Segundo, cada pessoa reage de uma forma a qualquer situação na vida, fato. Terceiro, fale-me mais sobre ter sobrevivido ao bullying? Então quer dizer que queremos criar mais uma geração de sobreviventes? Porque é isso que somos, não só pelo bullying que muitos de nós sofreu, mas por outros aspectos também. Uma geração perdida e desajustada. E mais, você sabe que tipo de transtornos a Nina pode ter trazido para a vida adulta? Ou que características em sua personalidade possam ser fruto do que ela viveu?
Você realmente acredita que aquele adulto que hoje tem vergonha do próprio corpo, que não se aceita, que é inseguro, que precisa de medicamentos pra ansiedade, depressão, entre outras coisas, não sofre as consequências do seu passado? Infelizmente, algumas marcas nunca serão apagadas, podemos aprender a conviver e tolerar, mas esquecer não tem como. E sinceramente, não pretendo criar filhos que acreditem ser normal certas atitudes, que são brincadeiras, coisas de criança/adolescente. Uma brincadeira deixa de fazer sentido quando alguns acham graça enquanto outros sofrem pelo mesmo motivo. Fazer uma vez, duas, ok, não estamos criando robôs, mas insistir naquilo, não pode ser aceito. E o bullying é exatamente isso, a insistência no sofrimento alheio. Não se trata de uma situação isolada e pontual como uma simples brincadeira ou piada, é contínuo e devastador e deixa marcas profundas, psicológicas e físicas também.
E da mesma forma que eu não vou tolerar filho meu fazendo isso com alguém, também não aceitarei que façam com eles. Por isso, aqui vão dois pedidos. O primeiro é que não sejam coniventes com seus filhos. Se vocês pais, responsáveis por eles dão ok, será difícil explicar que é errado. E segundo, não menos importante, preste atenção no seu filho. Qualquer mudança de comportamento deve ser investigada. Converse com ele, transmita confiança e acolhimento. Dê importância ao que ele te contar. Não fale que é bobeira, que é fase, que vai passar. Nunca menospreze o seu sofrimento e o faça entender que juntos vão solucionar aquela questão e, claro, tome providências. Li muita gente falar que estamos criando uma geração que não sabe lidar com suas frustrações. Acho realmente que isso acontece muito, mas isso não é bullying. Ensinar a criança, por exemplo, que ser a menor da turma não é um problema, é bem diferente que fazê-la acreditar que é normal todos os dias os coleguinhas a chamarem de anã e rirem da sua cara.
Para concluir, quero salientar que acredito que esta tragédia, assim como todas as outras que já tivemos notícias, não tem culpado. Ao mesmo tempo sinto que somos todos responsáveis por ela. Fica aqui meu forte abraço pra você que já sofreu bullying ou sofre neste momento. E Nina, um especial pra você, espero que esteja tudo bem. Até a próxima!
*Nina é um nome fictício, mas a história é real.


