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A arte de escrever como estética da resistência

A produção literária no Espírito Santo nunca foi tão potente como nos últimos anos. Isso se deve tanto às políticas públicas de incentivo à leitura e ...

Última atualização

A produção literária no Espírito Santo nunca foi tão potente como nos últimos anos. Isso se deve tanto às políticas públicas de incentivo à leitura e à literatura quanto à potencialização de processos de produção de autoras, autores e editoras independentes que atuam na cena capixaba.

A distribuição de conteúdos literários, principalmente em formato físico, continua sendo um desafio importante. O tema segue protagonizando histórias de quem se dedica à escrita e provocando inúmeras ações que têm como objetivo garantir o direito à leitura literária – principalmente neste tempo histórico de retrocessos – como uma espécie de assinatura ética, política e estética. Neste texto, alusivo à Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, propomos uma reflexão nessa direção.

Em “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas” (1865), de Lewis Carroll, a menina traz uma provocação: – e de que serve um livro? O “livro”, que originalmente queria dizer “membrana vegetal encontrada sob a casca das árvores”, enquanto substantivo comum, serve para pouquíssimas coisas. O direito de escrevê-lo, publicá-lo, distribuí-lo, acessá-lo, criticá-lo, e mesmo reinventá-lo, é revolucionário.

A História da Literatura está recheada de exemplos que podem contribuir para ilustrar a ideia da escrita como estética da existência e da resistência. Logo, não é difícil imaginar tempos históricos nos quais os livros foram proibidos.

Esse é o cenário de “Fahrenheit 451” (1953), de Ray Bradbury, um marco da ficção científica que se faz reconhecido como obra política. No livro, o personagem Guy Montag, bombeiro, que outrora se dedicava ao combate a incêndios, passa a ter a função de queimar livros impedindo que o conhecimento se disseminasse.

No Brasil de 2019, analogamente, cumpre lembrar: a extinção do Ministério da Cultura (MinC); do Conselho Consultivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), o ataque à Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a censura na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Tudo o que foi dito e feito, nessa (i)lógica, pode ser desdito e desfeito.

Clássicos como “Fahrenheit 451”, nos tiram da zona de conforto. Exigem viver e administrar os conflitos, reiteram a necessidade de práticas dialógicas e reafirmam a ideia da estética da existência e da resistência. Isso, porque, em sistemas que têm um governo que dita regras absurdas e que investe na manipulação de pessoas por meio de inverdades, a rebeldia é fundamental. Logo, caríssima Alice, um livro serve para, entre outras coisas, rebelarmo-nos.

A arte de escrever tem sido uma das formas de seguir rebelando-nos a favor do estranhamento; do direito a ser quem se é ou deseja vir a ser; da provocação dos sentidos, condicionados pelas situações concretas de vida; da ampliação das percepções; da experimentação de novos ângulos pelos quais se pode olhar; do encontro de vozes, singulares e plurais; do reconhecimento da necessidade de que a palavra precisa seguir dizendo.

Que a escrita e o seu poder seja uma possibilidade atemporal. Que os livros, em quaisquer formatos, não prescindam de ser, entre outras coisas, portais para a humanização.

Lilian Menenguci é escritora e professora

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