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A atração dos tribunais

Americanos nunca foram bons de geografia, tem gente lá nos EUA que até hoje acha que Buenos Aires é capital do Brasil e que a Amazônia pertence a ...

Última atualização

Americanos nunca foram bons de geografia, tem gente lá nos EUA que até hoje acha que Buenos Aires é capital do Brasil e que a Amazônia pertence a eles. É gente que parece não bater bem da bola, até elegeram Trump para presidente. Atualmente há um bom número, quase um terço dos estudantes do fundamental, que acreditam que a terra é plana. Então Gagarin e os demais astronautas “exorbitaram”? Sem contar estudantes e adultos que ignoram Darwin e propagam que descendemos mesmo daquele desenlace Adão e Eva no paraíso, a maçã, a serpente e tal.

Já nós, brasileiros confessos, aprendemos a acreditar e a desconfiar de tudo ao mesmo tempo. E estamos no meio de um turbilhão a partir de algo que norte-americanos adoram reverenciar, que são os julgamentos nos tribunais. Eles já produziram zilhões de filmes, seriados e livros a respeito. Apreciam uma corte suprema para exaltar valores morais e a democracia, mesmo que esta seja relativa. Por aqui, nos últimos dias tivemos aulas de sociologia jurídica a partir do case Lula no Superior Tribunal Federal (STF), que segue desdobrando e batendo recordes de audiência.  

Na votação da concessão, negada, do habeas corpus ao ex-presidente Lula, chamou atenção a previsão dos votos que seriam dados ali com base na leitura do perfil e histórico dos 11 ministros do STF. Antes do julgamento, jornalistas antenados previam o placar de 6 a 5, não sabiam exatamente para qual lado, tudo dependeria  do voto da Rosa Weber, que seria, e foi, fiel da balança. Então, quando Rosa proclamou seu voto contrário a Lula, o placar final passou a ser mais uma crônica anunciada.

Ou alguém tinha dúvidas em relação aos votos, por exemplo, do Barroso ou do Gilmar Mendes? Eles, como os demais, viraram protagonistas de debates que se tornaram, nos últimos anos, atração do noticiário no chamado horário nobre. A essa altura, conhecemos bem a tendência de cada um. E aquela história de cabeça de magistrado ser totalmente imprevisível foi num tempo em que não havia sequer leitura labial, muito menos sessão transmitida diretamente pela TV. Desafio maior é se familiarizar com o linguajar juridiquês ali praticado, às vezes parece coisa de outro mundo: “teratológico” (*), “disruptivo” (**)…

Pois agora prepare o seu coração: temos uma sociedade polarizada – muitos nervos à flor da pele –, uma corte suprema dividida, um presidente da República batendo recordes de rejeição, somando com a prisão de Lula, as apelações e as eleições a caminho.  O turbilhão parece longe do fim. O momento é dos blocos se manifestando favoráveis ou contrários a Lula, dos analistas que tentam perscrutar o próximo desfecho e o impacto eleitoral. No fundo, formou-se um caldo de cultura que o afrouxamento da lei em relação a Lula seria assar uma pizza para os condenados da Lava-Jato, esse temor falou alto. E provavelmente influenciou naquela decisão da Rosa Weber que votou contra o ex-presidente, um nordestino que chegou ao poder levantando a esperança de milhões.

Governou com os pobres? Em termos: banqueiros e empresários ganharam muito dinheiro com Lula no poder. Muitos deles agora festejam sua condenação. Assim como há muitos seguidores de Lula indiferentes às acusações e à condenação de agora, que reclamam de perseguição, da falta de “provas consistentes” ou defendem tratamento diferenciado. Assim como há um bloco considerável que mistura desilusão com indignação em relação a Lula.

Um zap que ganhou as redes sociais parece ter resumido em linguagem popular outro sentimento que paira no ar: “Agora só resta a Lula recorrer ao Procon: comprou seis juízes, vieram cinco”. Olha a imagem negativa que ainda ronda a corte suprema e de como são interpretadas as relações entre os poderes. O País vive um grande julgamento, em tempo real. Amigos se juntam e se dividem se agridem ou se evitam. Pensou que aquela guerra doméstica de coxinhas versus mortadelas tinha acabado? Voltou com novos cenários e personagens, é uma série real, sem truques e edições, embora repleta de subtextos e interpretações.

Se um americano songamonga chegar por aqui agora, além de entender que Buenos Aires não é nossa capital vai descobrir que também estamos mais atentos aos julgamentos em nossos tribunais. Para um povo que vivia endeusando os ases da pelota, equivale dizer que brasileiros superaram a fase em que muitos acreditavam que a Terra não passava de uma esfera com quatro linhas e duas balizas dentro. E onde o juiz tinha um apito em vez do martelo. Olhando bem, o jogo político nos tribunais é igualmente desafiador, nem sempre dá a lógica desenhada. A diferença é que nunca acaba quando o tempo da sessão termina.

(*) uma anomalia, juridicamente refere-se a uma decisão absurda

(**) algo que interrompe uma ação, supera uma tecnologia existente

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