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A criança de ontem e de hoje

Durante muito tempo as crianças foram tratadas como seres biológicos, sem reconhecimento social e sem autonomia. Houve períodos na história em que o ...

POLIANA RANGEL MATTAR é psicóloga e terapeuta artística antroposófica

Última atualização

Durante muito tempo as crianças foram tratadas como seres biológicos, sem reconhecimento social e sem autonomia. Houve períodos na história em que o abandono e a mortalidade delas eram em grande número, crianças pobres ou deficientes podiam ser abandonadas ou mortas pelos pais e a prática do infanticídio era comum.

Além disso, trabalhavam em locais insalubres, sem segurança e por tempo maior do que 12 horas por dia.

Hoje, embora a visão sobre elas seja diferente, ainda encontramos abandono, mortalidade, infanticídio, em números altíssimos.

O trabalho infantil começa logo que nascem, como vemos nas vias públicas e nos semáforos, onde bebês com suas mães cumprem função como ferramentas de trabalho. Tem, ainda, aquelas que correm entre os carros vendendo balas ou biscoitos. Estamos tratando as crianças de forma diferente do século XIX?

A saúde mental e as deficiências das crianças só foram motivo de interesse a partir do século XIX, quando pesquisadores começaram a se interessar em estudar o comportamento daquelas que apresentava deficiência mental ou cognitiva. Somente após a segunda guerra estudos mostraram que os sofrimentos psíquicos delas eram completamente diferentes do dos adultos, tanto no diagnóstico como no tipo de tratamento.

Mas, apesar do grande avanço registrado nas pesquisas ainda nos deparamos com filas de crianças acorrentadas em supostos diagnósticos. As encontramos, exaustas, com agendas lotadas de cursos fora do currículo escolar padrão e muitas sofrendo com depressão.

Algumas escolas reclamam do comportamento delas, sem se atentarem para o fato de que estão em pleno desenvolvimento motor, psíquico e intelectual e que uma das suas características principais é a espontaneidade, que têm dificuldade de separar o mundo da percepção do mundo da vontade. Então, como desejar que sejam felizes, se não podem realizar o que percebem? Como ajudá-las a elaborar seus sentimentos se a vida afetiva, que está entre o mundo da realização e da vontade, não pode ser fortalecida?

As crianças de hoje não podem sofrer frustrações, devem ser fortes, felizes, saudáveis, inteligentes, falarem várias línguas, conversar sobre diversas coisas, entender sobre arte, tecnologia, além de se divertirem com jogos e vídeos dos tablets ou telefones dos pais, ou até mesmo delas próprias.

Agora, repito a pergunta feita acima: estamos tratando as crianças de forma diferente de como era no século XIX? Se analisarmos sob a ótica científica sim, mas se pensarmos no respeito as fases de desenvolvimento, certamente não. Todo o conhecimento consequente de pesquisas sobre o desenvolvimento infantil, suas fases, a importância de cada uma para que haja a transformação em um adulto saudável, não estão sendo observadas pela sociedade em geral.

O importante atualmente é mostrar o quanto a criança está acima do nível intelectual dito normal para sua idade. O brincar pelo brincar, está desvalorizado até mesmo pela área da educação, tudo tem de ter um objetivo pré-estabelecido. Enquanto brinca a criança cria, se forma. Conforme o psicanalista Gilberto Safra afirma “criar é existir, não só como ser biológico, mas como ser acontecendo em gesto e símbolos que articulam, de forma singular, as questões existenciais do indivíduo.” Assim, somente estaremos respeitando o “ser criança”, quando permitirmos que criem e assim se elaborem como indivíduos.

Poliana Rangel Mattar é psicóloga e terapeuta artística antroposófica.

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