Li, em 1970, numa pipa empinada por um garoto no céu de Copacabana, uma frase interessante, que nunca esqueci: “Artista não é uma classe especial de homens, mas todo homem é um artista especial.”
Na nossa intimidade, algo mais encontrado na natureza, ou pura inspiração, gerou uma ideia. Dar sentido ou forma a essa ideia, para sensibilizar outros homens, é ser artista. Cada qual do seu jeito: pintando, cantando, dançando, escrevendo, representando,..
Diante de indivíduos muito habilidosos (isto é virtuoses) ou de especialistas em provocações artísticas (com aparatos, nem sempre eficientes) e de alienígenas (exageradamente valorizados pelo nosso provincianismo), não devemos nos acanhar. Marqueteiros inteligentes e com bom jogo de cintura, eles aparecem, apoiados por curadores e jornalistas deslumbrados, passando a ideia de que são mais especiais do que os artistas locais.
O artista atual busca qualidade na sua comunicação, pela multilateralidade, onde os diferentes somam. Superando viseiras e intransigências da arte contemporânea, é vanguarda. Liberdade/clareza, autenticidade/audácia, versatilidade/inovação são o seu diferencial. Ele valoriza o público, sabendo que a sua obra só acontece se percebida, e que sua função é fazer nossa vida mais cheia de experiências. Desperta nossa consciência para os fenômenos estéticos do cotidiano muitas vezes ignorados. O café derramado na toalha da mesa para o espírito rude é só problema, mas, para iniciados, a forma da mancha, o colorido, a nuance e as texturas podem proporcionar prazer, além do problema. Cultivar essas percepções, no cotidiano, é vivenciar a arte. Há 500 anos, Leonardo da Vinci sugeria a apreciação das manchas e desgastes dos velhos muros romanos.
Sensível ao nosso tempo, o artista atual encontra, na diversidade dos meios (literatura, pintura, música, cinema, internet…), o mais eficiente ou a combinação deles, para apresentar ao público sua obra, naquele momento.
Na pintura, o artista não procede como o antigo egípcio submisso à “lei da frontalidade”; nem como o contemporâneo Picasso, fiel a fases com manias de cores. Ele quer a melhor forma para veicular sua ideia, com a liberdade que experimenta, sabendo que a prisão mais eficiente é a que se constrói para si mesmo. Assim como o escritor que, dependendo do assunto, se expressa na forma de diálogo ou monólogo, poesia, conto ou romance; como o músico, que, de acordo com o tema, opta por compor uma música lenta ou ligeira, e ainda escolhe, entre diferentes arranjos, o ideal para envolver o ouvinte; o pintor atual transita por estilos, técnicas, materiais e suportes, para melhor expressão da sensação que deseja transmitir.
Na Barra do Jucu, acompanhei a degradação da paisagem em seu entorno. Quis registrar minha impressão, fui impressionista.
Nos anos 80, indo além das nossas fronteiras tentando contar histórias, com ênfase em alguns aspectos políticos, fui expressionista. Nos últimos anos do milênio passado, atento à “Era da Incerteza”, pintei coleções abstratas. A última, em 1999, lembra a vertigem de Alice ao cair no buraco, quando perseguia o Coelho das Horas, no início da sua aventura no País das Maravilhas.
Performances inspiradas em Diógenes, 300 a.C. (Praça é praça, não?) e instalações com base na História local (Robério Martins: procura-se), ou em observações científicas (A Vale, A Vaca e a Pena), são atividades do repertório do meu ateliê, com portas sempre abertas ao público desde abril de 1979.
Os fundamentos desta estética atual, nascida da velocidade (futurismo) e desenvolvida na explosão da comunicação, oferecem ao artista um horizonte amplo. Se desviarmos o olho do umbigo e seguirmos em frente (sem viseiras), observando todos os lados, não avistaremos o futuro, mas caminharemos com mais liberdade, prazer, segurança e arte.
Kleber Galveas é pintor.