O estudante pobre se insere num ambiente desprestigiado socialmente, incluindo a escola, e com situações-limite de violência e racismo. Isso estimula a descrença “suicida” na dignidade de uma vida a serviço de uma estatística burocrática aliada a um processo de financeirização geral do mundo.
Ainda há muitos tijolos-estudantes enfileirados numa escolar linha de produção, como mostra o vídeo da música Another Brick In The Wall, de Pink Floyd.
Assim, estudantes anônimos e massificados, vivem uma condição extenuante e sem sentido, sem esperança de mudança. Não acreditar no futuro se encaixa na eterna rolagem de “Sísifo”, por isso, estudantes das escolas públicas são alguns dos recentes Sísifos de nosso tempo. No mito grego, Sísifo desafia o maior Deus do Olimpo e acaba condenado a rolar um rochedo até o alto de um monte; no entanto, ao chegar quase ao cume, o cansaço não impede de o rochedo rolar abaixo, num ciclo a se repetido eternamente.
É preciso enxergar potencialidades nessa condição absurda. Para tanto, a centralidade político-pedagógica deve partir do sentimento de absurdidade e desorientação do estudante, que estimula caminhos existenciais alternativos, em que pese não haver horizontes de mudanças estruturais na realidade institucional dos sistemas de ensino das redes públicas. Desse modo, o absurdo não consiste numa punição. Não é o caso de se ser otimista ou pessimista sobre essa condição de falta de perspectiva. O mito de Sísifo não indica um contínuo vai e vem entre a repetição nostálgica do passado à espera de um futuro que nunca chega, mas indica algo ainda mais promissor: a importância de se enxergar o presente. A questão central é (con)viver com um presente marcado pelo absurdo. A única possibilidade de se sustentar a vida para o estudante absurdo é a vivência do presente.
A falta de horizontes predeterminados ou utópicos não impede, mas favorece uma potência criativa do agora enquanto acontecimento. Assim, cai por terra uma possível acusação de que uma abordagem pedagógica do absurdo geraria apassivamento conformista com a opressão. Ao contrário, há de se estimular a capacidade de rebeldia de nossos estudantes, sem falsa esperança ou escapismos.
Diante das ruínas de seu mundo, a potência do exercício da imaginação é muito maior do que a sua alternativa irracional num hipotético além-mundo.
Os estudantes em condição de absurdidade são capazes de construir imaginativamente novas narrativas desde seus referenciais culturais como se fossem uma infiltração de vida num muro de cimento, tijolos e preconceitos, convertendo-o em motivação para novas possibilidades existenciais.
O filme A vida é bela nos atordoa por apresentar uma estratégia leve e poderosa ante um ambiente trágico. A invenção de um jogo pelo pai para brincar com seu filho num campo de concentração nazista torna o filme uma fábula da existência.
Ele mostra a potência da imaginação por sua impactante capacidade de transfigurar um acontecimento absurdo e dilacerante em ação ética em defesa da vida, apesar da ameaça da morte à espreita em cada “instante sutil” de sua rotineira faina diária. Para tanto, é preciso usar a imaginação para não se submergir na loucura e no silêncio do mundo e dessa forma mostrar ao estudante da rede pública que, sim, é possível viver e ser feliz.
Marcelo Barreira é professor do Departamento de Filosofia da Ufes