
Na última campanha eleitoral, ficaram célebres memes em que um candidato disse que crianças pequenas se tornariam propriedade do estado e outro em que um candidato usava uma camisa em que estava escrito “fora nordestinos”.
Em nossa precária República, muito antes da existência da internet, as fake news já eram meio para a construção do ideal republicano e afirmação dos defeitos da monarquia, pois não havia muitas virtudes para serem demonstradas no novel regime golpista.
Particularmente, foi pitoresca a notícia da suposta devassidão que teria ocorrido no último baile do regime, realizado na Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, no dia 9 de novembro de 1889, seis dias antes da proclamação da República.
O Visconde de Ouro Preto, último chefe de governo do Império, organizou o baile alegando homenagear os oficiais do navio chileno Almirante Cochrane.
Na verdade, a intenção era demonstrar a pujança do regime imperial, já bastante combalido, em detrimento das movimentações de grupos republicanos. Foi um baile extremamente concorrido e luxuoso. Também, na ocasião, se comemoraram as bodas de prata da Princesa Isabel e do Conde d`Eu, que teriam dançado alegremente noite afora. O imperador D. Pedro II estava amuado. Não jantou e foi embora cedo. As brumas do talvez dizem que, ao chegar à festa, teria tropeçado e, ao levantar-se, consta ter dito: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu”.
Dias depois, uma coluna cômica do jornal O Paiz, publicou que, dentre vários objetos esquecidos, “uma senhora deixou lá ficar o espartilho!”.
No dia 15, os oportunistas do meio militar esperaram que o imperador virasse as costas, viajando a Petrópolis, para colocar o marechal Deodoro da Fonseca, um escroque que se fazia passar por amigo de Dom Pedro II, sobre um cavalo, para proclamar a República. O povo assistiu perplexo a um espetáculo à Brancaleone, e achou que era apenas um desfile militar comum.
A família imperial foi banida e a República foi tentando se estabelecer. A partir daí, entre outras notícias falsas para desmoralizar a monarquia, foi explorada ad nauseam a história das roupas íntimas femininas. Espalhou-se que haviam sido encontrados 37 lenços, 24 cartolas e chapéus, oito raminhos de corpete, três coletes de senhoras e dezessete cintas-liga.
Outras variações da história foram se incorporando à narrativa, como a de que foram três dias de festa e que as bebedeiras não tiveram fim. A falta de méritos da República tentava se comparar às supostas imoralidades da monarquia.
A primeira fake news estava plantada. Muitas viriam depois. E muitas ainda virão.
Sérgio Lievore é auditor de controle externo e historiador.