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Alguém tem de ceder para a vida a dois prosperar

Eu não me casei, pois, com o voto de castidade, próprio dos religiosos, fazemos essa bela mística opção em nome do Reino dos Céus e, a princípio, ...

Carlos Alexandre Rubim

Última atualização

Eu não me casei, pois, com o voto de castidade, próprio dos religiosos, fazemos essa bela mística opção em nome do Reino dos Céus e, a princípio, posso parecer a pessoa mais inapropriada para falar de matrimônio; entretanto, tenho meus queridos pais, que são vivos e estão juntos há 40 anos.

Tenho a minha irmã, muitas tias e parentes… enfim, também conheço muitos casais por esse mundo afora, conheço de perto o sofrimento e a alegria na vida matrimonial. Algumas pessoas, com 70 anos de casamento e, por mais que nos assustemos, já participei de uma rara “bodas de vinho” (setenta anos de casado).

O casal das bodas era muito lúcido. Na celebração, o padre perguntava qual a receita para viverem tantos anos juntos, e eis que a experiente senhora diz: “sempre procuramos ceder, por isso não havia briga entre nós; ceder é largar-se de nós mesmos”. E ela continuou “respeitamo-nos durante todos esses anos e foi isso que deixamos como legado aos nossos filhos”. Legado este deixado a todos nós que temos uma família. A separação é um desafio enorme, que, sem dúvida, afeta aos filhos e demais familiares.

O alarmante índice de separação em nossos dias é preocupante. O matrimônio, para muitas religiões, é entendido como um ato de comunhão, mas se tornou, em nossos dias, para muitos, uma mera formalidade social. Esqueceram do amor, do acolhimento, de que o sofrimento “faz parte”, e que cada dia é necessário conquistar a quem fora prometido amar para uma vida toda. Essa é a mística do matrimônio que está sendo perdida. Que já intitulou, inclusive, a um lindo filme.

Lembrei de uma história que tinha ouvido sobre o tema dito pela senhora naqueles dias das bodas, por sinal de vinho, que quanto mais velho, melhor!

Até interessante o nome que convencionaram a dar para as raras bodas vividas. Trata-se de uma história da gaivota e da ostra. A ostra semiaberta tomava sol nas águas rasas da praia quando uma gaivota a fisgou. Logo, ela se fechou com força, prendendo o bico da gaivota. E ficaram assim, sem ceder, uma pressionando a outra, numa luta mortal, até que chegou o pescador e apanhou o que comer no almoço, decidiu inovar, preparando um suculento prato de “gaivota e ostra à pescadora”. Não ceder foi fatal nesse caso.

A vida, seja ela matrimonial, seja profissional, ou na relação entre pais e filhos, não pode ser considerada ou vivida como um cabo de guerra, em que só podemos nos considerar vencedores após ter derrotado (ou destruído) outros. É isso que estamos vivendo atualmente com outros nome– a competição, bandeira tão hasteada pelas grandes empresas –, tendo forte reflexo em nossas famílias. Há situações em que ceder é viver, é agregar, é juntar-se ao outro.

Não se trata, nessa relação, de viver passivamente, aceitando de tudo, isso seria ruim, e não seria uma relação demasiadamente humana. A famosa DR (discussão de relacionamento) é normal, acontece!

Na verdade, o amor vai brotando a cada dia, a cada problema, a cada recomeço, sem os desafios não é possível vivenciar as alegrias da vitória.

Que nossos matrimônios perdurem e que o amor vença!

Carlos Alexandre Rubim é frei católico, escritor e mestre em Ciências das Religiões.

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