- Vitória, ES 24°C

Vitória 24°C

Anúncio
Tribuna Livre

Castanheira, adorável vilã

Durante o último recesso parlamentar, a senadora Rose de Freitas (PMDB) foi passar uns dias em Meaípe, balneário famoso pelas enseadas de águas ...

Última atualização

Durante o último recesso parlamentar, a senadora Rose de Freitas (PMDB) foi passar uns dias em Meaípe, balneário famoso pelas enseadas de águas calmas, peixarias e restaurantes estrelados que servem deliciosas moquecas, embora a preços salgados. Diz ela que voltou sem conseguir dar um mergulho no mar, tantas as demandas, visitas e contatos. Num desses, recebeu inusitado pedido de representantes da Associação de Moradores: endossar abaixo-assinado contra a retirada de castanheiras da orla, para que a municipalidade execute um projeto de urbanização. 

A senadora assinou e divulgou um pequeno manifesto em defesa das castanheiras que, nos últimos tempos, viraram vilãs de ambientalistas defensores de um questionado raciocínio: por ser planta exótica à nossa Mata Atlântica, ou o que dela restou, impede que outras espécies nativas cresçam sob sua sombra ou ao redor. Parece a história do senador romano tão maléfico que, por onde passava, nem grama mais nascia por ali. Já na linguagem do futebol, costuma-se dizer que goleiro é uma posição tão maldita que nem grama nasce sob seus pés, linguagem que vale para um tempo em que não havia grama sintética, lógico.

O real, aqui e agora, é que as castanheiras estão sendo caçadas em nosso litoral. Volta e meia surge ação de alguma prefeitura para abater as castanheiras, em nome da defesa da restinga. À espécie ainda são atribuídas outras maldades, como invadir e destroçar muros e banheiros com suas raízes vorazes, danificar fiações etc. Mas, o que tem a seu a favor a “ameaçadora” castanheira, que provoca reações, às vezes, apaixonadas, em sua defesa? Além da sombra generosa e refrescante, elas abrigam pássaros, embelezam, já fazem parte da paisagem litorânea. E seus pequenos frutos, ainda que insossos, são praticamente inofensivos em caso de queda.

E já faz tempo que as castanheiras entraram na mira de machados e motosserras, por motivos diversos. Nos idos de 1976, o jornalista Oswaldo Oleare encarapitou-se no alto de uma delas, no pátio do colégio Maria Ortiz, ao lado do Palácio Anchieta, em protesto contra a anunciada derrubada do cordão de castanheiras no pátio da escola, para dar lugar a novas salas e departamentos. Fez um veemente protesto, sua foto, abraçado aos galhos de uma castanheira, “viralizou” nos jornais – na época, claro, não havia plataforma digital. “O fato é que o governador da época, Élcio Alvares, logo  mandou suspender a derrubada das castanheiras”, recorda Oleare.

Mais recentemente, em Manguinhos, pescadores fizeram veemente protesto, quando funcionários de uma empresa terceirizada pela prefeitura começaram a derrubar castanheiras, para reurbanizar espaços. Algumas foram postas abaixo, dando lugar ao concreto, contudo o cordão que sombreia as embarcações e pescadores, na beira da praia, no centro da vila, foi preservado praticamente no grito. Às vezes, a comunidade estrila, desmobiliza motosserras por um período, até que um dia, de súbito, homens e máquinas reaparecem e detonam. Quando a comunidade se dá conta, o arraso está feito. Tem sido assim, entre vitórias e derrotas, preconceitos e incompreensões, gritos e farfalhar de folhas, a caça litorânea às castanheiras.

De minha parte, cultivo carinho especial por uma frondosa castanheira em frente à  casa. Como não se encontra em área de restinga, segue, em tese, salva dos “caçadores de espécies exóticas”. Se for levar por esse terreno, julgo que esses deveriam se preocupar mais com a monocultura do eucalipto e as barulhentas casuarinas. De resto, a “minha” castanheira, além de muita sombra, já me trouxe surpresas. Como o plácido e sábio João de Barro, que ergueu num dos galhos sua morada de frente para o mar, mas que logo depois teve como vizinho uma colméia de enfurecidas e insuportáveis abelhas.

Nas manhãs, seus galhos robustos servem de pouso para sabiás da praia, que ficam por ali cantando. Ou caladas e atentas, quando sobe o som do piano de Bill Evans no aparelho. Costumo dizer que sabiás que em minha castanheira gorjeiam, só param quando toca Bill Evans, Miles, Jobim, coisas assim. Constato que têm gosto apurado e andam até mais afinadas. Só não gosto da castanheira durante o outono, quando as folhas ressecadas despencam aos borbotões. O consolo é que esse trabalho sazonal com as folhas é pouco ou quase nada diante da sombra, da brisa e de sabiás embalando as estações.

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.