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Considerações sobre a Lava a Jato

Ultimamente temos presenciado um Brasil marcado por uma radical polarização. As duas últimas eleições presidenciais serviram para acirrar ainda mais ...

Última atualização

Ultimamente temos presenciado um Brasil marcado por uma radical polarização. As duas últimas eleições presidenciais serviram para acirrar ainda mais a divisão do país, deixando clara a existência de dois blocos antagônicos. Tudo o que é bom para um lado é péssimo para o outro, e vice-versa.

As redes sociais têm sido o alto falante desse imenso Fla x Flu ideológico. Absolutamente todos os assuntos viram cabo de guerra, desde as necessárias reformas pelas quais o Brasil precisa passar, até o mais insignificante ato administrativo praticado por qualquer um dos poderes tem virado uma batalha homérica, onde cada um dos lados tenta a todo custo fazer valer seus argumentos.

A Lava Jato não ficou fora desse embate. Pelo contrário, acabou sendo um dos principais divisores de água da polarização. Em muitas discussões que vemos por aí é comum nos depararmos com afirmações do tipo “ele é contra a Lava Jato”, ou “quem é contra a Lava Jato é contra o Brasil” ou, ainda, afirmações demonizando a Operação Lava Jato. A maior operação de combate à corrupção de todos os tempos criou vida! Se personificou e hoje desperta paixão ou ódio em muitos brasileiros. A pergunta que deve ser feita, neste contexto, é: há razão para isso?

Minha visão (que, certamente, também receberá muitas críticas de pelo menos um dos lados citados) é que não há! Não há razão para personificar a Operação Lava Jato, que se trata de um dos maiores e mais complexos trabalhos no campo da investigação policial e dos processos judiciais criminais do planeta.

Como um trabalho ou uma grande obra que é, a Lava a Jato não tem vida, não tem lado, não tem ideologia. Muito embora seja um trabalho realizado por pessoas (que, obviamente, são passíveis de erros), a Lava Jato, em si, não pode nem deve ser personificada. Podemos afirmar, aliás, que esse grande trabalho investigativo/judicial é o principal marco na história do combate à corrupção em nosso país.

Mesmo os mais céticos e críticos não têm como negar os resultados objetivos dessa investigação, que apurou o desvio de cerca de 6 bilhões de reais da Petrobrás.

Os números (aproximados) são astronômicos! São 2.252 anos de condenação, para 159 réus de praticamente todos os partidos e/ou linhas ideológicas do país. Cerca de 183 acordos de colaboração premiada já foram firmados, aproximadamente 800 pedidos de cooperação jurídica internacional já foram enviados ou recebidos de mais de 80 países.

Até agora são cerca de 612 milhões de dólares bloqueados no exterior e outros 166 milhões de dólares já repatriados, ou seja, devolvidos aos cofres públicos brasileiros. Enfim, são resultados que não podem ser negados.

Como se não bastassem os resultados apresentados, a Lava a Jato ainda foi responsável por contribuir de forma decisiva para a mudança da cultura investigativa no Brasil. Além disso, a visão de nossas instituições, no exterior, está mais fortalecida. Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário são, efetivamente, vistos com a independência que de fato possuem, pela comunidade internacional.

Bem, os fatos são inúmeros e incontestes. Não me atrevo, todavia, a tentar convencer quem quer que seja. Recentemente, aliás, uma pesquisa do Datafolha revelou: 26% dos brasileiros não acreditam que o homem foi à Lua!

Eugênio Ricas é delegado da Polícia Federal, adido da PF nos EUA, mestre em Gestão Pública.

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