De acordo com o Atlas da Violência 2019, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a morte no Brasil tem cor, idade, gênero, classe social e nível de escolaridade. Ou seja, quem mais morre por morte violenta no Brasil são os homens negros jovens, pobres e de baixa escolaridade. A taxa de homicídio contra negros cresceu 33,1%, enquanto a de não negros aumentou 3,3%.
E há quem insista em afirmar que vivemos uma democracia racial. Isso não é verdade.
O racismo permeia as relações sociais e se manifesta, de modo geral, sutilmente, nas piadas e brincadeiras.
Esse foi um dos temas pesquisados e debatidos nas aulas de Sociologia em turmas de terceiro ano do Ensino Médio no mês de junho.
Essa aula rendeu muitas reflexões, sobretudo pelas narrativas carregadas de dor e sofrimento dos estudantes ao falar sobre as situações a que já foram expostos, dentro e fora da escola, devido à cor da pele.
Impossível não levar esse debate para a sala de aula, já que é a escola o lugar onde as diferenças se fazem presentes, diariamente, e onde também encontramos relações sociais marcadas pelo preconceito e pela discriminação.
E sendo a escola um espaço pedagógico temos a possibilidade de intervir e contribuir para a desconstrução dos preconceitos.
Uma estudante, emocionada, nos contou sobre o constrangimento que passou em uma loja ao ser seguida o tempo todo por um segurança. A narrativa dessa jovem emocionou a todos. E, segundo outros relatos, essa cena se repete o tempo todo.
Usando exemplos vistos em séries, falaram ainda sobre os cuidados que jovens negros precisam tomar para não serem confundidos com bandidos, já que há no imaginário social uma associação direta entre a negritude e a bandidagem, herança de anos de escravidão (importante lembrar que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, no século XIX).
O racismo também está presente no cotidiano da escola, mas, em muitas situações, é minimizado sob o rótulo de brincadeira e, talvez por isso, seja tão difícil agir em determinadas situações.
A cada vez que identificamos as “brincadeiras”, tentamos conscientizar os estudantes que para ser “brincadeira” é necessário que todas as partes envolvidas estejam se divertindo. Se há quem saia da situação constrangido, triste, humilhado, não é “brincadeira”. É violência e precisa de mediação, intervenção e conscientização.
Nas últimas semanas, percorreu as redes sociais a imagem de um professor da rede privada de ensino fazendo “blackface” (caracterização com estereótipos racistas), mostrando que nós, educadores, também precisamos estar mais atentos à forma como nos colocamos diante dos estudantes e do mundo.
É preciso compreender a dor do outro e agir de forma direta e objetiva contra toda e qualquer forma de violência.
Não podemos, de forma alguma, reforçar preconceitos e estereótipos. Nem com a melhor das intenções. A empatia precisa viver e crescer dentro de nós. Ou seja, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista!
Por fim, concluímos que os jovens negros têm muito o que falar. Mas é preciso que a sociedade os deixe falar e os deixe viver!
Fabíola dos Santos Cerqueira é professora de Sociologia da rede estadual da Serra.