
Atualmente, parece necessário discutir com o próximo e, não raro, buscar convencê-lo do equívoco da sua visão e, por outro lado, do inquestionável acerto do ponto de vista que se está a defender.
Claro que o debate e a defesa de entendimentos diversos são absolutamente comuns e naturais em um ambiente social em que vigorem a democracia e o pluralismo de ideias. A questão que ofende o bom-senso e, por isso, ocupa lugar central neste texto é a seguinte: até que ponto vale a pena defender uma posição política em detrimento de uma amizade?
Pode parecer radical, mas tem-se observado, com indesejável frequência, que a ideologia política vem se sobrepondo a antigas afinidades pessoais, intoxicando longas amizades, relações profissionais e laços familiares. Pensar a política de maneira oposta ou mesmo divergente passou a ser um obstáculo à convivência harmoniosa entre as pessoas. Tamanho sectarismo esgarça o tecido social, embaça a visão enquanto coletividade e, por fim, impede a tomada de decisões coletivas racionais para o bem-estar de todo o conjunto social. A divisão da sociedade entre “os que pensam como eu” e “os que estão errados” parte do pressuposto de que alguém ou algum grupo seja detentor da verdade absoluta ou de que seja tão iluminado e superior, que ele (e tão somente ele) deva ser o condutor dos rumos da nação.
Quando se defende uma determinada posição política, acredita-se que ela seja a mais adequada ao desenvolvimento do país. Em tese, as intenções são as melhores, não se duvida. Porém, não prática, a divergência política tem causado rupturas relacionais, rachaduras emocionais e isolamento afetivo. Qual o custo de se defender ardorosamente uma ideologia? Será sinal de inteligência agarrar-se a um posicionamento político e distanciar-se dos amigos, familiares e colegas que divergem dessa visão? É muito importante ter noções de cidadania e opiniões políticas. É mais relevante ainda ter boas e saudáveis relações sociais.
Nesse contexto de aparentemente inconciliáveis visões políticas, é prudente fazer uma análise das próprias consciência e conduta. Se acredito e defendo que uma parede deva ser pintada de amarelo não significa que o melhor para a parede é ser amarela. Significa, tão somente, que eu tenho uma opinião sobre a cor da parede. Ainda assim, quaisquer pessoas também podem ter suas opiniões e, para elas, a melhor cor para a parede seja a vermelha (ou azul, preta, verde…). A minha opinião é apenas uma visão de mundo, parcial, incompleta, imperfeita e, pasmem, até mesmo injusta. Uma opinião significa a minha hipótese preferida, a que toca mais fundo em meu coração e minha capacidade de entendimento. É preciso ser tolo para pretender transformar uma versão parcial, incompleta, talvez transitória, em uma certeza completa e absoluta.
Divergência política não justifica o destempero, a falta de civilidade, de gentileza. O que justifica tudo isso é a ignorância. A inteligência e a maturidade sabem divergir com respeito e empatia. Uma diferença política vale muito menos que uma amizade.
Carlos Fonseca é magistrado, poeta e escritor.