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Filho bonito, crise de identidade

Às vésperas da inauguração do novo aeroporto de Vitória, após 14 anos de reformas e ampliação, começa a decolagem dos candidatos que querem patentear ...

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Às vésperas da inauguração do novo aeroporto de Vitória, após 14 anos de reformas e ampliação, começa a decolagem dos candidatos que querem patentear a obra, para chamar de sua. Paralelo, sem trocadilho, o deputado federal Lelo Coimbra (PMDB) propõe batizar o novo terminal do aeroporto com o nome do cientista Augusto Ruschi, o que gera outra polêmica. Afinal, para onde vai a memória do Eurico Salles, que dá nome ao terminal desde priscas eras? Ainda que durante certo tempo algumas comissárias de bordo insistissem em anunciar: “Vamos pousar em instantes no aeroporto das Goiabeiras”. Então, estamos diante de um antigo caso de crise de identidade.

Não é a primeira vez que tentam apagar o Eurico Salles dessa história, e como poucos a conhecem atualmente, vale um refresco de memória. Advogado e professor de Direito, ele foi deputado federal em 1946 e ministro da Justiça de Juscelino Kubistchek, atuou como representante do Brasil no FMI e ocupou diversos outros cargos importantes. Após a morte de Augusto Ruschi, surgiu um movimento para homenagear o renomado cientista defensor da ecologia dando seu nome ao aeroporto da capital. Muitos estrilaram: apagar um homenageado para dar lugar a outro é se lixar para a própria história. Esse bloco, a bem da memória, prevaleceu. Nada contra Ruschi. Aliás, um nome icônico para se batizar qualquer outra obra relevante.  

O deputado Lelo argumenta que sua proposta é dar o nome de Augusto Ruschi ao novo terminal ficando o antigo como Eurico Salles. Esse arranjo de dois em um pode ser visto como uma saída salomônica, mas que só irá aguçar a crise de identidade já existente. Mal comparando, até hoje a gente nunca sabe direito quando sinalizamos ao táxi ou Uber, se vamos para o Galeão ou Tom Jobim. Esse é o debate que está no ar na esteira que conduz ao novo terminal capixaba.

O outro debate traz pimenta eleitoral no meio: quem realmente pode ser considerado pai ou mãe da obra, já que estamos diante de uma disputa que inclui dois gêneros e múltiplos interesses? No ano passado, a senadora Rose de Freitas visitou as obras do terminal estampando faixas e distribuindo adesivos com os dizeres: ”Novo aeroporto: eu acreditei”, uma forma de cutucar os descrentes e aqueles que ficaram a ver navios. Desde que Lula, em 2004, veio autorizar o início da obra – sinalizando que ficaria pronta até 2008 –, muito vento soprou na biruta. Diversas foram as interrupções, TCU embargando e apontando desvios, superfaturamentos etc. Também não faltaram criticas do tipo: a reforma não passa de um puxadinho.

Agora começa a sessão das lideranças políticas visitando as obras do novo terminal previsto para começar a operar no próximo dia 26. Em ano eleitoral, taí um filho que já foi rejeitado, nasceu mirrado, sofreu bullying de todo tipo, mas que agora ficou grande, bonito e se revela promissor. A paternidade, então, segue disputada, todo mundo querendo mostrar que ali tem o seu DNA, o que só aumenta a crise de identidade desse caso. E cabe ainda outra dúvida: aeroporto dá voto?

Em tese, pouco ou quase nada. Quem voa é informado e anda em outro plano, exceto aqueles que seguem nas nuvens. De resto, maioria da população não pisa nos terminais aéreos. No máximo, quando leva o filho para ver avião “de perto”, mesmo estando na distante galeria.

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