
Exemplo disso é uma de suas imagens mais famosas: um homem fazendo malabarismo para não molhar os pés. Ele pula de uma escadinha que está no chão e a poça traz o seu reflexo acrobata. Do outro lado do quadro, é possível observar um espectador que se entretém com a cena. Há um investimento na busca por um olhar documental, mas que resulta no ocultamento da câmera fotográfica e na captura de instantes absolutamente decisivos nos quais era possível ver sempre a presença do instantâneo.
Essas representações de situações da rotina, que são vividas em frações de segundos, podem contar um momento histórico; também perpetuar dados que, mesmo limitados dentro da dimensão de um suporte – como o jornal – traçam cenários políticos e econômicos. Ou, puro e simplesmente, falam do viver.
Cada vez mais, as pessoas têm acesso à fotografia, que antes era exclusiva de poucos, por ter um custo alto. O recurso, uma verdadeira máquina do tempo, permite que a sociedade possa ter acesso ao passado e produza, com até mesmo um smartphone, o seu presente.
No entanto, imagino que hoje em dia, quando a fotografia alcançou um nível ainda maior de disseminação e produção com os telefones com câmeras, que a simplificação dos processos de captação, armazenagem, impressão e reprodução de imagens também simplifiquem o seu significado diante do tempo.
Pois, como nos lembra Ernst Haas (1921-1986), um dos pioneiros na utilização da cor na fotografia, que possuía uma capacidade inesgotável de transformar o prosaico em transcendente, “a câmera não faz diferença nenhuma. Todas elas gravam o que você está vendo. Mas você precisa Ver.” E o que estamos vendo? Não estamos vendo, apenas registrando?
Para tanto, vale recordar um poema de Manoel de Barros (1916-2014) chamado “Difícil Fotografar o Silêncio”. Nele, a imagem poética não é a experiência comum do ver, o que interessa são as incontinências, assim como nas crônicas e narrativas visuais cotidianas. A fotografia destacada no texto preocupa-se em eternizar a essência, o privilégio da memória de guardar ali, no espaço de tempo do clique, o sentimento. Porque fotografia é isso, guardar tudo o que sentimos. O resto é fugaz.
Então, para que o humano (fotógrafo) não se petrifique ou se torne insensível diante do dia a dia, um antídoto: não ignore o cotidiano em busca do “extraordinário”. Enxergue na rua da sua casa, no ônibus, na praça, um universo rico em significados e relações. A relação do homem e seu ofício, a conversa entre os que se sentam ao seu lado, até mesmo a solidão de alguém em meio à multidão de um centro urbano qualquer.
Essas pequenas frações do cotidiano é que compõem esse mosaico importante dito fotografia, e que nos possibilita Ver. Retratar e dar visibilidade à rotina (quase) invisível é mote de um sem fim. Vamos fotografar?
Thaiana Gomes é fotojornalista