Recentemente perdemos um dos grandes personagens capixabas. Estamos nos referindo ao professor Carlos Sandoval Gonçalves, ícone dentre os pesquisadores e professores de Medicina do Brasil, que faleceu após uma vida dedicada ao mister de fazer e ensinar sua arte na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo.
Reconhecido por seus feitos, foi agraciado pelo governo, no final do ano passado, com a comenda Jerônimo Monteiro, a mais alta condecoração conferida pelo Estado. Nada mais justo. Me lembro de sua luta para que o Espírito Santo fosse um dos primeiros a receber a vacina para controle da infecção pelo vírus B da hepatite.
Seu trabalho como pesquisador foi fundamental para que o Ministério da Saúde o atendesse. No Hospital das Clínicas, onde atuou por quase toda sua vida, criou um serviço de atendimento à doença do alcoolismo, que ainda dava suporte ao paciente e sua família para combater a dependência da droga.
Nesse quesito, o apoio e a dedicação do médico a seu paciente contam muito, e nisso o professor Sandoval sempre foi um mestre.
Era um incansável pregador da humanização da medicina, como chamava. Que passa por uma preocupação constante pela relação médico-paciente, sem a qual, segundo ele, não há cura para a maioria das doenças.
Essa conduta, associada a sua permanente dedicação às pesquisas, fizeram do professor Sandoval uma referência nos estudos, ensinamentos e atendimento a doenças do fígado.
A autoria de capítulos em livros de graduação e pós-graduação, artigos em revistas especializadas e, sobretudo, suas aulas magistrais em congressos pelo Brasil fizeram dele uma figura expressiva na gastroenterologia brasileira.
Seu lado pessoal era de muito bom humor. Torcedor do Fluminense, certa vez convidou um amigo flamenguista para descerrar a fita de uma placa comemorativa que mandara implantar na sala dos professores.
Ao fazê-lo, fez surgir uma charge mostrando um atacante tricolor fazendo gol de barriga sobre o Flamengo.
Nas reuniões que implantou no Hospital das Clínicas, mesmo que o número de presentes fosse pequeno, dizia: “Em respeito àqueles que chegaram no horário, vamos iniciar nossa reunião”.
Nas mesas em congressos, costumava usar uma frase que ele atribuía a outro colega, quando o orador extrapolava o tempo destinado à aula: “Professor, seu tempo já se esgotou e o prazer que temos em ouvi-lo só é superado pelo rigor do horário”.
Nascido em 20 de abril de 1942, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, formou-se em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina, hoje UFRJ. De retorno ao Espírito Santo, passou a dar aulas na Escola de Medicina da Ufes, até sua aposentadoria, há 7 anos.
Ali construiu uma legião de médicos, muitos deles dedicados ao estudo e tratamento das doenças do aparelho digestivo por sua influência.
Influência e admiração que extrapolaram em muito nossos limites territoriais para ganhar fãs por todo Brasil.
Agnóstico, costumava brincar dizendo que era um “ateu não praticante”. Eu, também ateu não praticante, diria para o professor Sandoval que, se fosse Deus e alguém me solicitasse construir uma pessoa perfeita, o construiria.
Renato Carvalho Fischer é presidente da Sociedade de Gastroenterologia do Espirito Santo.