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Horário político obrigatório

O inevitável está acontecendo, para a ira de muitos: período eleitoral, “horário político obrigatório e gratuito” nas rádios e emissoras de ...

Evaldo D´Assumpção

Última atualização

O inevitável está acontecendo, para a ira de muitos: período eleitoral, “horário político obrigatório e gratuito” nas rádios e emissoras de televisão.  Evaldo D´Assumpção (Foto: Divulgação)

Muito já se escreveu sobre isso, mas ainda há muito o que se escrever e protestar contra ele, até que os poderes constituídos reconheçam que essa instituição, como está, é absolutamente ridícula, dispendiosa para um país com suas economias tão abaladas, ineficaz e, o que acredito ser o pior: facciosa. Senão, vejamos.

Ele é ridículo, porque no reduzidíssimo tempo que é proporcionado a cada candidato(a), nada de útil consegue-se apresentar. O que proporciona aos ouvintes e espectadores, é a constatação de como falta autocrítica aos homens e mulheres que se dispõem a verdadeiras palhaçadas naqueles seus poucos segundos de glória. São apelidos absurdos, visual às vezes obsceno, na maioria das vezes utilizados para tentar conquistar o voto de eleitores descompromissados com a democracia, e que votam naquelas tristes figuras como inócuo protesto contra o status quo. Em outras palavras, os eleitores “queimam” seus votos, mal sabendo que assim favorecem os maus políticos profissionais que ganham pelo voto proporcional. Vide, entre outros, o palhaço Tiririca que, a seu reboque, colocou tantos incapazes no Congresso.

Ele é dispendioso, porque apesar de ser intitulado “gratuito”, só o é para os que querem mostrar suas caras e suas tolices nas telinhas mágicas da tv. Na verdade eles não pagam nada por esse show ridículo, mas de forma indireta, o governo paga cada segundo nas rádios e TVs, cujo custo é elevadíssimo. Ainda que seja através de remissão de impostos que seriam melhor aproveitados para outras finalidades.

Ele é ineficaz, porque nem os candidatos majoritários, que ocupam um tempo maior, conseguem passar mensagens realmente úteis para a escolha do melhor (?) candidato. Fazem apologia de si próprios, dizem e mostram coisas que só os tolos acreditam. Ou, o que é pior, malversam o tempo que têm, dirigindo ofensas e acusações, aos seus adversários. Coisas quase sempre inverídicas, forjadas ou distorcidas, num total desrespeito à ética e ao bom gosto. E o fazem, tolamente acreditando que com isso mudarão os votos de quem já se decidiu por algum candidato. Melhor seria se houvesse somente debates e entrevistas sérias – não previamente preparadas para derrubar ou favorecer candidatos. Nelas, teríamos melhores oportunidades de vislumbrar o que cada um pretende.

E ele é faccioso, pois de forma oficial favorecem enormemente alguns candidatos, utilizando o mecanismo de número de partidos coligados e número de deputados no congresso para estabelecer a duração dos programas. Num total desrespeito à Constituição nacional, que em seu artigo 5º diz que “todos são iguais perante a lei”. Portanto, a distribuição do tempo deveria ser absolutamente igual para todos os candidatos, dando oportunidade semelhante para que cada um pudesse apresentar suas ideias e objetivos. E, especialmente, sem utilizar serviços de marqueteiros – de triste memória – tampouco recursos audiovisuais que só os mais ricos conseguem contratar. A apresentação seria de cara limpa, para não ter suas sujeiras escondidas pelo glamour da tecnologia.

Creio que só assim o horário político poderá ser resgatado, tornando-se verdadeiramente útil para a análise de candidatos.

Evaldo D´Assumpção é médico e escritor.

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