Há pouco, o calendário marcou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21/01). Em 02 de fevereiro, celebra-se Iemanjá, “a mãe dos orixás”. Com fé, ou não, andemos a reverenciar a diversidade de crenças no Brasil, garantida pela Constituição, mas, infelizmente, massacrada por crescentes cruzadas de violência e preconceito contra a devoção que não é espelho.
Não é à toa que precisamos de um dia para lembrar que a intolerância religiosa existe e deve ser combatida. Enfrentá-la é algo decisivo para a liberdade de crer, mas lutar contra esse tipo de discriminação vai além do campo da fé. Essa lição a história nos dá.
A discussão sobre as intolerâncias na caminhada civilizatória surgiu exatamente com o debate acerca das perseguições religiosas. Essa temática atravessa duas das principais referências filosóficas sobre a questão: a Carta sobre a Tolerância, de John Locke (1689), e o Tratado sobre a Tolerância, de Voltaire (1762).
Pode parecer incabível pensar que a intolerância religiosa esteja na matriz da ampla maioria das opressões que se praticam desde há muito. Mas, sim, amparados em verdades redentoras e radicais, intolerantes justificam desde os mais comezinhos gestos de desprezo ao semelhante até hediondos crimes de guerra.
Se a intolerância religiosa “inspira” outras intolerâncias, pode-se concluir que a tolerância à diversidade de credo seja um dos fundamentos da vida fraterna entre nós. Daí a importância desse debate.
Locke oferece uma pista para que avancemos nesse desafiante caminho de convivência pacífica na diversidade. Observando duas esferas da existência – uma pública, concernente à vida em comum, regulada por leis, e outra privada, orientada pelas livres escolhas da consciência individual –, o pensador fixa um modo de se evitar a intolerância. Trata-se do fator indiferença.
E o que deve ser indiferente? É alguma ideia, situação, comportamento e/ou escolha que, se forem mudados, não fazem a menor diferença ao conjunto da vida social. Num exemplo: a fé que eu professo faz alguma diferença para o universo das leis que regem a comunidade em que eu vivo? Não! Isto é, a não ser que exista alguém que se arvore o direito de dizer no que eu devo crer, buscando “salvar” a mim mesmo das minhas próprias escolhas.
E, nesse caso, Locke também oferece um raciocínio lúcido. “Nem o próprio Deus pode salvar os homens contra a vontade destes”, cabendo a “cada homem a preocupação com sua própria salvação, cuja obtenção não pode ser facilitada pelo esforço de outro homem, nem sua perda se transformar em prejuízo deste”.
Como descreveu Mircea Eliade, “o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no Mundo”. O sagrado “é a manifestação de algo de ordem diferente – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo ‘natural’, ‘profano’”. As religiões se colocam como sistematizadoras da relação do homem de fé com o sagrado.
Dessa forma, que o inventar e o vivenciar religiões sejam respeitados como uma escolha legítima, como um fenômeno histórico de livre criação de sujeitos em busca de algo que lhes diga um pouco mais da experiência de existir. E que as religiões sejam sinal de fraternidade entre nós, e não justificativa para quaisquer intolerâncias. Odoyá, Iemanjá!
José Antonio Martinuzzo é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória