
Portanto, ter domínio da língua faz muita diferença. Significa estar mais preparado para interagir com outras pessoas, o que implica ter a possibilidade de influenciar seu modo de agir e pensar e, da mesma forma, também ser influenciado. Língua é, pois, mudança, interação, transformação.
Durante longo tempo, acreditou-se que falar bem português era falar difícil, isto é, empregar frase de efeito, com estrutura complicada e vocabulário culto. Hoje pensa-se de modo diferente: usar bem o português é o mesmo que saber adequá-lo às diferentes situações sociais de que participamos.
Por exemplo: em situações formais, como numa entrevista, num discurso público, numa carta a um jornal ou numa dissertação escolar, é indispensável o uso da variedade padrão e formal da língua. Já numa conversa com os amigos ou familiares, a língua padrão seria formal demais e poderia contribuir para o distanciamento entre as pessoas.
A língua estudada nas gramáticas nos ensinos fundamental e médio, e na faculdades é a Língua Portuguesa viva, isto é, a usada em suas variedades oral e escrita, padrão ou não padrão, formal ou informal, regional ou urbana, etc. É a língua que circula em jornais, tevê, quadrinhos, canções, textos literários, anúncios publicitários, enfim, nos textos que circulam socialmente.
A partir desse contexto, considera-se que a gramática reflexiva tem sido operante no que tange: texto, semântica e interação.
O estudo de gramática não se limita às prescrições da variedade padrão, mas também abre novas perspectivas para o ensino de língua e aborda aspectos relacionados à semântica linguística textual e análise do discurso, considera-se o âmbito do texto, que contempla aspectos ligado à semântica, à estilística e à teoria do discurso, e substitui a ideia de erro pela noção de adequação.
Leva o aluno a descobrir o mecanismo de funcionamento da língua e a refletir sobre os efeitos de sentido produzidos pela aplicação dos elementos gramaticais aos textos.
Mas a pergunta que não quer calar: possibilidade. A língua portuguesa está empobrecida? Não. O que empobreceu foi a potencialidade dos falantes. Uma língua não é pobre ou rica. O falante é que é pobre ou rico no uso que faz dela. Perder a potencialidade de uma língua é um sinal de enfraquecimento.
Que fatores contribuíram para a perda dessa potencialidade? A distância entre um falar padrão e um falar espontâneo. Minha tese é a de que a educação linguística de um falante significa transforma-lo em um poliglota dentro da própria língua. Quando ele chega à escola, vem com uma modalidade de linguagem. A escola não tem que substituir essa modalidade,
Tem de acrescentar mais uma a ela. Se ele descobrir a literatura, vai descobrir mais uma potencialidade. Educar linguisticamente uma pessoa é, portanto, habilita-la a se expressar no maior número possível de possibilidades que a língua apresenta. Faz parte da língua viva a criação de novas palavras.
Luiz Alberto Bruno Souza é professor de Letras