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Memes e monstros

O tatibitate de duplo sentido “Fica Tite não” viralizou pós-eliminação na Copa. E no dia seguinte, na hora de outro jogo da Copa, os bares no ...

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O tatibitate de duplo sentido “Fica Tite não” viralizou pós-eliminação na Copa. E no dia seguinte, na hora de outro jogo da Copa, os bares no Triângulo das Bermudas estavam desertos, a torcida desapareceu e telões exibiam a partida para as moscas, monumental ressaca. Ainda bem que ninguém se atreveu a cair no lugar comum e dizer: a seleção volta pra casa.

Não combina: a maioria fica pela Europa mesmo, é uma legião estrangeira paga a peso de ouro. Não é à toa que a torcida brasileira custou a se empolgar com o time, pois ninguém sabe bem quem é quem, excetuando o Neymar e a torcida corintiana. E quando a coisa estava engrenando, miou, parou no tal paredão belga. Até então, a gente só se lembrava dos belgas na hora do chocolate e da cerveja, nisso são craques.

Uma seleção triste a do Tite, sem vibração, alegria contida. O que faltou por lá? Há quem diga que houve excesso de treino e pouco lazer, de prazer cronometrado. O ex- senador Gerson Camata, craque na arte de contar causos, narra que há 60 anos, quando o Brasil conquistou o primeiro mundial, na Suécia, Garrincha costumava fugir da concentração e ir conferir o que as suecas tinham de bom e tal.

Numa dessas fugidas noturnas, Paulo Amaral, preparador físico e xerife daquela delegação, saiu ao encalço do arisco ponta-direita. A certa altura, entrou numa casa noturna, ficou ali um tempo, naquela penumbra, luzes piscando, as mulheres passando, os homens bebendo, e quando ia embora ouviu o grito de Garrincha lá no fundo: “Bonito, seu Paulo, até o senhor na zona, hein”.

Quanto às aventuras desta natureza na Rússia, o que se sabe é que namoradas dos jogadores andaram por lá, aquela coisa já tradicional. Porém, pouco ainda se sabe do off Moscou, das quebradas da noite. Mas como perdemos no campo, as histórias dos bastidores também perdem glamour, diferente da jornada gloriosa na Suécia de 1958.

Em tempo: Garrincha ajudou a ganhar aquela Copa e, reza a lenda, ainda deixou um filho gestando por lá. Era outra época, os tais anos dourados da primeira Copa conquistada, do surgimento da bossa nova, da inauguração de Brasília etc.

Nos últimos anos, o futebol moderno virou uma caixinha não somente de surpresas, mas também e grandes e escusos negócios. Vide a extensa relação de dirigentes de futebol da CBF e Fifa encalacrados em sucessivos escândalos de corrupção. Somos rigorosos com a Lava-Jato, zelamos e receamos por ela. Já no futebol, qual o quê: maioria não dá bola, parece que a magia do jogo justifica os excessos e desvios, anestesia tudo. E paira um ruidoso silêncio da torcida.

Voltamos ao dia a dia da crise brasileira, da violência, do Rio quebrado, dos extremistas inflamados e de um presidente desacreditado, um vivo- morto no poder. “Temer é nosso Drácula tropical”, aponta Sérgio Augusto, colunista e crítico de cinema. Com uma diferença enorme, sem nada do charme do famoso vampiro que, aliás, ganhou uma versão cômica “Férias Monstruosas” em cartaz nos cinemas. Imagina aqueles personagens sombrios e sinistros fazendo ensolarado cruzeiro marítimo reproduzindo hábitos humanos numa jornada tropical?

Ainda sobre Drácula – o personagem, não o Temer – há outra hilária cena de cinema (“Amor à primeira mordida”, de 1979, o ator é George Hamilton), onde ele está sendo expulso do seu castelo por aldeões munidos de alhos, cruzes e tochas. A certa altura, ele pragueja: “Sem mim, a Transilvânia será tão emocionante quanto Bucareste numa noite de domingo”. Depois agita sua capa e embarca numa carruagem rumo a Nova Iorque. E lá vai ele em busca do sonho de consumo de todo vampiro urbanizado: as clínicas e laboratórios de sangue das cidades. Bobeando, rola um delivery.

E para que, afinal, ficar correndo atrás de aldeões, invadindo janelas, se aventurando por alcovas, enfrentando estacas e crucifixos, se escondendo em caixões entre ratos e dependendo de um repugnante escudeiro que se alimenta de insetos? Comparando, Temer corre menos riscos, apesar do desgaste monstruoso, dos seus ministros sinistros e da chuva de processos que o ameaça. Ele segue fazendo fita mesmo com o filme queimado. Pra gente sobra o filme de terror e algum humor para segurar o rojão.

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