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Moqueca com poeira

“Quanto mais gente turistando por aí, mais pegada de carbono no ar. Pensou que a inocente viagem a Bariloche e aqueles bois brancos pastando nada ...

Jornalista, músico e colaborador do Tribuna Online

Última atualização

“Quanto mais gente turistando por aí, mais pegada de carbono no ar. Pensou que a inocente viagem a Bariloche e aqueles bois brancos pastando nada causavam?”

O francês tem fama de ser avesso a turistas, e mal-humorado. Esse é o sentimento de muitos que visitam a França, do qual compartilhava plenamente, até que um parisiense perguntou se eu gostaria de ver minha cidade invadida o tempo todo, dia e noite, por turistas insaciáveis com suas maquininhas vasculhando tudo, se possível seu quarto, alma e desvãos, como diria aquela marcha buarquiana. Aliás, o próprio Chico Buarque é um desses assíduos turistas de Paris, já quase candidato à Légion D`Honneur (Legião de Honra). Se bem que esse negócio de condecoração e prêmio de academia ultimamente, hein… Vide a sueca do Nobel, Hollywood e os escândalos sexuais na fita. Até Polanski queimou filme.

Então, quando um francês reagir rabugento, talvez seja melhor dar um desconto. Pense na privacidade perdida de Paris ou dos aldeões diante de uma barulhenta caravana de turistas. Malas e invasões à parte lá, cá e acolá, turismo é a tal indústria branca, sustentável, que gera renda e não polui…Oooppss, que não poluía, até surgir o estudo de uma universidade australiana revelando que a indústria do turismo representa 10% da emissão de gases-estufa, índice quatro vezes acima do que se imaginava. É o resultado da carga de carbono deixada pelos aviões na atmosfera, o impacto da cadeia alimentar – aquelas ilhas de plástico se formando nos atóis do Pacífico. Quanto mais gente turistando por aí, mais pegada de carbono no ar. Pensou que a inocente viagem a Bariloche e aqueles bois brancos pastando nada causavam?

O que a pesquisa deixou no ar é a necessidade de rever a noção do turismo como a indústria branca, de baixo passivo ambiental. E essa constatação abala uma tese muito difundida entre os capixabas, de que ao invés do pólo industrial de Tubarão, com suas nuvens de gases e pó de minério no horizonte de Camburi, seria melhor que o Espírito Santo tivesse optado por sua vocação natural para o turismo. Afinal, temos mar e montanha tão próximos e inúmeras belezas naturais a oferecer.

O fato é que muitas autoridades já foram criticadas – alguns até viraram Judas pendurados em postes naquelas malhações de rua – por defenderem indústrias potencialmente poluidoras, como siderúrgicas e mineradoras, mas que geram emprego e renda, embora nem sempre compense o custo-benefício. Acho até que a turma do Bolsonaro vai pinçar essa pesquisa sobre o “turismo poluidor” para fazer contraponto à Marina e ao bloco verde. E a Samarco, paralisada após a tragédia ambiental de Mariana, certamente dará um bom case de programa eleitoral. Logo a Samarco, que instalou suas esteiras e chaminés num dos mais bucólicos recantos do nosso litoral adornado por belas enseadas e rústicas aldeias de pescadores.

Esse é um debate que vai sendo travado num ar cada vez mais rarefeito. Agora mesmo temos o novo aeroporto de Vitória: mais barulho, carbono e alguma renda. E diante da nossa histórica indefinição de qual matriz econômica seguir, entre tantas incertezas e nebulosidade, acabamos optando por um mix dos dois modelos, buscando um meio-termo para atividades que já foram consideradas água e óleo. Resultou num turismo misturado com indústria, a tal moqueca com poeira. E está aí o substrato do turismo de negócios, dos viajantes que representam empresas e respondem por boa taxa de ocupação da hoteleira capixaba.

Dá para viver nesse meio-termo de vocação econômica? Bem, a gente questiona, às vezes estrila e segue adiante. Afinal, somos espécie em evolução e adaptável. Ainda que à custa de renites alérgicas, camadas de pó sobre os móveis, praias impróprias para banhos e outros males impalpáveis, assim como a crescente ansiedade e a dependência digital trazida pelo apressado mundo novo tecnológico.

Tente sobreviver algumas horas sem o celular ou ofereça aos turistas uma exibição de congo. A ausência do celular irá provocar sintomas de abstinência em fração de segundos. Quanto ao congo, após cinco minutos de pura empolgação, a repetição quebra o encanto e a coisa vai ficando maçante. Andamos num tempo tão pilhado que, volta e meia, somos obrigados a recorrer à pergunta da escritora Hilda Machado: “Onde é que fica essa tomada, onde desliga?”

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