
Esse dia era, nas saturnálias romanas, dedicado ao nascimento de Apolo, cuja carruagem era o Sol, daí a expressão ‘Dies Natalis Solis Invicti’ ou o dia de nascimento do “Deus Sol Invicto”. Vemos, então, que a festa do Natal surge como uma sacralização de uma festa que os romanos já consideravam sagrada em sua mitologia. Logo, dizer que o “nascimento de Jesus” é o “verdadeiro” significado do Natal é uma meia-verdade. Explico. Imaginem se os herdeiros do antigo paganismo romano dissessem, conforme a explicação histórica feita antes, que o “verdadeiro” Natal era o deles, posto que houvesse um significado mítico anterior ao da mitologia cristã e de sua festa em honra de Jesus… teríamos de reconhecer que eles não estariam totalmente errados…
A perspectiva histórica é, talvez, a melhor forma de se relativizar interpretações rígidas da vida e do mundo, incluindo aí a formação de nossas crenças. Muitas dessas interpretações, ditas como uma verdade indiscutível, acabam impedindo quaisquer discursos um pouco diferentes do lugar-comum. Encontramos hoje certo tom moralista naqueles que consideram os donos da “verdade”, também sobre a religião e o Natal. Gostaríamos, porém, de propor um “espírito natalino” mais condizente com o princípio cristão que gestou nossa democracia. Um princípio de inclusividade e acolhimento de cada ser humano, independentemente de sua maneira de pensar. Sei que minha proposta não é padrão, embora esteja em sintonia com o espírito do Natal.
Reconheçamos nossa condição de multiplicidade cultural crescente, basta olhar para o seu lado e verá a riqueza de diversos pontos de vista sobre tudo. Muitos vivem radicalmente a secularização atual ou participam de confissões religiosas não cristãs, mas que, mesmo assim, também desejam vivenciar e dar um novo significado à festa do Natal. Talvez esse espírito de acolhimento do outro, na sua “verdade” — também sobre o Natal —, seja o verdadeiro espírito de Natal.
Consideramos possível respeitar e legitimar uma vivência natalina sem uma referência forte ao cristianismo. Ateus e agnósticos, além dos membros de outras confissões religiosas não-cristãs, podem e devem fazer uma leitura do que se entende por “Natal”. De certa maneira, a sacralização empreendida pelos cristãos foi, paradoxalmente, uma ação também ela secularizante perante o que entendiam como sendo uma mentalidade religiosa, aquela mitologia romana, a ser “superada” pela mensagem evangélica.
Para muitos de nossos contemporâneos, o Natal significa uma experiência de confraternização e solidariedade, em que se deve estar junto em família e num clima de harmonia e paz. Apenas isso. Atenção: isso não significa uma anulação ou desvalorização de Jesus e de seu nascimento.
Ao contrário. A possibilidade de se viver e conceber o Natal idiossincraticamente não é uma negação do cristianismo, mas um reconhecimento de que o amor-ágape trazido pelo cristianismo tornou-se um “fundo musical” de nossa vida sociocultural. Feliz Natal, para cada um em sua diversidade!
Marcelo Barreira é professor do curso de Filosofia da Ufes.