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Nós negros precisamos de 365 dias de consciência humana

Nos dias de hoje, no território brasileiro concentra-se a maior população africana fora da própria África. Dados recentes do IBGE revelam que a ...

Manoel Goes Neto é presidente do IHGVV e diretor no IHGES

Última atualização

Nos dias de hoje, no território brasileiro concentra-se a maior população africana fora da própria África. Dados recentes do IBGE revelam que a população brasileira de negros e pardos soma quase 115 milhões de pessoas. Ou seja, mais da metade dos quase 207 milhões de habitantes do país.
E é exatamente por conta desse motivo que a cultura oriunda desses povos exerce uma grande influência em nosso país.

Pela primeira vez, o número de estudantes autodeclarados pretos e pardos passou o total de brancos nas universidades públicas brasileiras. Apesar desses números positivos, dados relacionados ao analfabetismo nos mostram uma outra realidade de desigualdade no ensino básico, onde temos 4% dos brancos com idade superior a 15 anos iletrados, enquanto mais de 9% dos negros são analfabetos.

Em 1533, de acordo com o registro mais antigo sobre a escravidão no Brasil, o sangue negro corria nas veias de apenas 17 indivíduos. Não se pode precisar quantos eram homens ou mulheres, pois todos vieram na condição de escravizados, para trabalhar nas terras da capitania hereditária de São Tomé – território que hoje se localiza entre o sul do Espirito Santo e o norte do Rio de Janeiro. Trabalhavam sem ganho, sem liberdade e sem dignidade.

No porão do navio, junto aos primeiros 17 homens e mulheres negras escravizadas, veio também a semente de um sonho de liberdade, de uma pátria humanitária, democrática e sem desigualdade. Uma nova concepção de mundo, que se forjou nos corações e mentes do nosso povo preto ancestral.

Porém, foi só no início do século XX que grande parte das manifestações, costumes, ritos e outros começaram a fazer parte também da cultura brasileira, sendo consideradas expressões não essencialmente africanas, porém, artes genuinamente afro-brasileiras. Sendo assim, hoje a cultura negra é também fundamental para formar a identidade de nossa nação, motivo pelo qual a cultura afro-brasileira se estabelece em todo nosso território.

Acho oportuno relembrarmos fatos históricos importantes, começando por uma tradição historiográfica, que responsabiliza Rui Barbosa por ter ordenado a queima dos documentos relativos à escravidão, em poder de repartições públicas submetidas à autoridade do Ministério da Fazenda, logo após a proclamação da República e, também, da abolição da escravidão.

Isso explica por que não há quase nenhum documento sobre escravos famosos da época como Zumbi dos Palmares. É o que muitos acreditam, embora haja opiniões divergentes. Certo ou errado nunca saberemos

Nestes quase cinco séculos passados, os descendentes daqueles 17 primeiros africanos e dos que vieram depois deles, lutaram pela liberdade, pelo fim da escravidão, e muito além disso, combateram em todas as frentes de batalhas por direitos democráticos, contra o autoritarismo, pela soberania nacional e a unidade do país. Um Brasil de todos, sem discriminação.

A luta contra o racismo é prioritária, precisa ser vista com seriedade, com mais investimentos em educação para a população negra.

Para vencermos a desigualdade social e a repressão. A resistência se dá diariamente e em diversas frentes de batalha.

A celebração do Dia da Consciência Negra é também um importante momento para brancos e negros, refletirem sobre racismo, suas raízes e suas consequências.

Manoel Goes Neto é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha e diretor no IHGES.

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