A demonização da política tal qual assistimos hoje – alguns de nós, inertes; outros, em estado de efusão – é reflexo da ruptura da ordem democrática, clarificada pelo sociólogo espanhol Manuel Castells em seu último livro, ‘Ruptura’.
O caos provocado pelo desgaste da democracia como forma de governo, e potencializado em tempos de empoderamento da sociedade através das redes sociais, tem um agravante que se exibe com força ainda mais devastadora: o surgimento de dois lobos, o Populista e o Autoritário. À parte efusiva da sociedade cabe decidir qual dos dois alimenta. Os inertes, por sua vez, continuarão sendo importantes coadjuvantes nessa tarefa, afinal, não há mal algum em quem não gosta de política: serão governados pelos que gostam.
Nem todos perceberam que o que está em andamento nesta campanha eleitoral é o início de uma nova transição de gerações e métodos de operações do Estado. Como em toda travessia, o novo se exibe ainda de forma caótica e disforme. O fim desse modelo de democracia a que assistimos nesta eleição teve início em 2005, com o Mensalão. Os resultados dessa “nova república” só aparecerão mais maduros e consolidados ao longo das próximas décadas.
O poder invisível das redes sociais é outro componente importante dessa revolução. Os meios de comunicação tradicionais não conseguem acompanhar o movimento subterrâneo e a dinâmica interativa da internet. Isso também influencia os institutos de pesquisa de opinião, cuja metodologia tradicional ainda é lenta, comparada à rapidez da rede.
Reflexo de um debate calcado na ideologia, e não em propostas, e da alta carga de informação e opinião a que estamos sujeitos em tempos de pós-verdade, o comportamento do eleitor sofre oscilações a cada 30 minutos, e não é possível acompanhar essa variação com a precisão de antes. Daí a inconstância dos números apresentados nas pesquisas e a dificuldade de apontar um ponto de chegada nesta eleição.
A propósito: onde foi parar o debate de ideias?
Os candidatos são sempre unânimes ao tratar a Educação como área prioritária de um governo. Mas é só começar o horário eleitoral para que as discussões alinhem-se aos interesses do mercado, que passam longe tema. Discutem-se nomes para a Fazenda e a política econômica do Banco Central, enquanto as escolas continuam relegadas a figurantes dos programas de governo.
Há sempre um hiato entre o que foi prometido na campanha e o que é entregue após a eleição. Não votamos em ideias ou propostas; elegemos pessoas. As propostas mudam; as ideias, também; as pessoas, dificilmente.
É equivocado pensar na eleição como um ambiente de discussão e comparação de propostas. Temos visto isso nesta campanha eleitoral, passional, fratricida e caracterizada pelo “voto da rejeição”. Eleitoralmente, de nada adianta o candidato ter as melhores propostas se a pessoa dele não conseguir cativar o eleitor.
Não há nada melhor para o político senão se deixar ser visto como mera pessoa e permitir que o eleitor se identifique com a sua pessoa. O candidato precisa ser um símbolo, uma ideia, algo maior que o indivíduo de carne e osso.
Fernando Carreiro é jornalista e consultor em marketing político e comunicação eleitoral.
