
Cansaços, medos e compulsões agressivas constituem sintomas de uma inquietante e extremada percepção de desamparo na contemporaneidade.
Porque nascemos prematuros, somos fadados à experiência real de desproteção já ao chegarmos à luz. Essa sensação dilacerante de abandono diante das tormentas e inseguranças da vida é fonte de angústia recorrente, mais ou menos acentuada de acordo com nossa personalidade, os eventos de nossas vidas e também segundo o espírito do tempo que nos abriga – e este não está ajudando em nada com sua crescente cultura de desamor, ódio e intolerâncias, sem falar da liquidez que a tudo parece dissolver com seus corrosivos ataques aos fundamentos civilizatórios.
Freud afirma acerca do ser humano que sua “existência intrauterina parece relativamente abreviada em comparação com a da maioria dos animais; ele está menos acabado do que estes quando é jogado no mundo. Por isso, a influência do mundo exterior é reforçada”, seja com relação aos temores, seja a respeito da busca de alguém que o resgate do abandono que se mostra como sina.
Os primeiros tempos de imersão no desamparo, para Freud, criam “a necessidade de ser amado, que nunca abandonará o homem”. Assim, como eternas crianças “desprotegidas”, almejamos redentores de nosso desamparo e/ou temperamos com temor nossas conexões com os semelhantes, também estruturalmente agressivos.
Essa ambivalência acerca do estado de desamparo, em tempos hostis como os atuais, pode nos levar à radicalidade de querer, a qualquer custo, um salvador que nos remeta àquela relação que nos deu os primeiros abraços e olhares de proteção ou a enxergar o mundo ao redor exclusivamente pelas lentes paranoicas de que tudo e todos nos ameaçam.
Tal realidade pode nos tornar presas fáceis para vendedores de ilusão, portadores de soluções mágicas ao incontornável desamparo existencial, assim como pode nos levar a enxergar o outro como inimigo, constituindo-se uma rotina de litígios. Essa lógica, que vale para os indivíduos, também pode governar comunidades inteiras.
Ainda que absolutamente desafiante, a vida civilizada é a única que sustenta a dignidade humana, possibilitando a efetivação de laços amorosos e generosos, livrando-nos em alguma medida das angústias excessivas de nossa carne desamparada e agressiva. Os vínculos fraternos, a virtude da compaixão e a vivência afetuosa autônoma são conquistas já experimentadas pela humanidade e não podem se perder nesta era de desconstruções.
O estado de desamparo, comum a todo humano, deveria mesmo nos inspirar a apostar num mundo em que ninguém larga a mão de ninguém, posto que ninguém está acima ou abaixo de ninguém. Ainda que seja este um movimento extremamente complexo, unamo-nos, pois. Até porque a alternativa, apesar de se apresentar como a mais radical e simples, tem efeitos nefastos para a vida de todos nós, que caminhamos cada vez mais firmes no rota do medo e do ódio, quando poderíamos investir no aconchego da fraternidade e na companhia da lealdade.
José Antonio Martinuzzo é pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro
da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória