Orfanato Cristo Rei, do sacrifício à ascensão, é o sétimo livro do escritor capixaba Marcos Bubach, atual presidente da Academia Cariaciquense de Letras. O livro surgiu do interesse em imortalizar a obra social mais relevante do Espírito Santo quando falamos de atendimento ao menor desassistido, o Orfanato Cristo Rei. Com prefácio da historiadora Diovani Favoretto, e onde assino o posfácio.
Quando li os originais, fui fisgado logo pelas fotos e documentos do Convento de São Francisco e Orfanato Cristo Rei que ilustram a obra. O autor apresenta em 14 capítulos, bem escritos, uma precisa cronologia histórica que poucos capixabas conhecem.
Eu confesso que desconhecia uma história tão rica e tão dramática dessa importante instituição. E olha que passei muitas vezes em frente ao orfanato na minha infância, nos anos 1960, quando ia visitar meus avós paternos, que moravam bem perto dali.
O livro conta uma história real e atual, passados quase 100 anos, quando, em outubro de 1924, o missionário italiano Padre Leandro Dell’Uomo, com forte vocação caridosa para com as crianças e menores abandonados, teve a ideia de aproveitar parte do abandonado Convento de São Francisco, no centro histórico de Vitória, na Cidade Alta, para ali instalar um orfanato.
Inicialmente chamou-se Orfanato Coração de Jesus e, depois, Orfanato Cristo Rei. No terreno doado à ordem, pela donatária da Capitania do Espírito Santo, Luisa Grinalda (1591).
Em 1924 é estabelecido o Orfanato Coração de Jesus, depois Orfanato Cristo Rei.
Enquanto esteve no alto de Vitória sobre a guarda de padre Leandro e do também caridoso Dom Luiz Scortegagna, o orfanato contava com uma orquestra, um grupo de professores, cuidadores, assistência médica, salas de aula, horta, sapataria, alfaiataria e tipografia (onde era impresso o jornalzinho do Santuário de Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha).
Com amor e com muita rigidez Irmã Marcelina seguia endireitando seus milhares de “filhos” nos caminhos da educação, do respeito e do profissionalismo.
Com muita determinação, criou e possibilitou que muitos de seus meninos se tornassem bancários, militares, padres, administradores de empresas, professores, comerciários, servidores públicos, entre outras profissões.
Grandes personalidades capixabas de destaque foram internas no antigo Orfanato Cristo Rei do Convento de São Francisco.
Podemos citar: Hermógenes Lima Fonseca, um dos maiores estudiosos da cultura popular capixaba; Miguel Marvilla, poeta e contista; Darcy Castello de Mendonça, grande radialista, político e que dá nome à Terceira Ponte; e Jonas Porphírio, jornalista, radialista, um grande benfeitor das causas do Orfanato Cristo Rei.
Até o cantor Roberto Carlos fez, em 1966, show no Parque Moscoso, com toda a renda revertida para a construção da nova sede do orfanato.
Em julho de 2001, após derrame cerebral, morreu irmã Marcelina, conhecida como “anjo branco”.
Com as mudanças legislativas no tratamento das crianças e adolescentes, o orfanato passou a não atender mais em regime de internato e a receber também meninas.
Até os dias de hoje, essa obra quase centenária cuida, abriga, alimenta e educa, em Cariacica, centenas de crianças que se encontram em delicadas situações financeiras e sociais.
Manoel Goes Neto é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha e diretor no IHGES.