O papel do médico é debelar doenças, essas simpatizantes da morte. Presente onde existe vida, o morrer também assusta o profissional de saúde. Enquanto a luz brilha no paciente, o médico labuta através dos iluminados caminhos do corpo. Todavia, quando a morte apaga a chama da vida, ele perde o interesse e se afasta.
O médico estuda fisiologia e patologia, mas pouco entende daquilo que acontece depois que ele se afasta de um corpo sem vida.
Sendo o primeiro órgão a recepcionar a morte, o cérebro armazena energia com a esperança de que o organismo volte a funcionar.
Quando o sistema cardiovascular para de trabalhar, o tecido cerebral, privado de oxigênio, gera isquemia, uma condição que provoca inatividade elétrica.
Um silêncio encefálico acontece para que os neurônios conservem sua energia, embora em vão, pois a morte quase sempre surge antes da reabilitação.
A lesão irreversível dessas células se desenvolve em menos de dez minutos, quando a circulação cessa completamente.
Neurônios funcionam com íons carregados, criando equilíbrios elétricos entre eles e seu ambiente. Isso permite que pequenos sinais sejam gerados.
A manutenção desse sistema torna-se difícil quando a morte se aproxima. Para se alimentarem, as células nervosas sugam oxigênio e energia da corrente sanguínea.
Quando o corpo morre e cessa o fluxo de sangue no cérebro, os neurônios, privados de oxigênio, tentam, como última cartada, acumular os recursos que sobraram.
Enviar informações de um lado para o outro acaba se tornando um desperdício nos momentos finais da vida.
Em função disso, os neurônios “se calam” e, em vez de enviar sinais, usam suas reservas de energia para manter cargas elétricas internas, esperando o retorno do fluxo de sangue, que nunca virá.
Posteriormente, aparece a fase conhecida como “tempestade cerebral”, caracterizada por uma grande liberação de energia térmica, consequência do equilíbrio que mantinha as células vivas, agora em colapso.
É neste momento que a morte abraça o corpo e expulsa a vida.
Mal ela chega, o corpo se transforma. Diante da morte, a pele endurece, os músculos amolecem, a bexiga e o intestino relaxam, a temperatura cai.
Passados 30 minutos, a pele se torna roxa, os lábios e as unhas empalidecem, as mãos e os pés ficam azulados, os olhos afundam no crânio.
Após quatro horas, o corpo começa a enrijecer e inchar. A partir daí, a morte convida pequenos seres para participarem do banquete. Bactérias e larvas mantêm a própria vida, usando a morte alheia.
Muitos afirmam que não temem a morte, mas o ato de morrer. Ausência lembra saudade e vazio. Morrer produz dor e sofrimento.
Ninguém gosta de falar sobre morte, tanto que, em vez de “morto”, dizemos “falecido”.
Quase nunca falamos que alguém está morrendo, mas que “está muito doente”.
Ao se aproximar da morte, o corpo vai se esgotando. O estado de coma que antecede a morte não é tão aterrorizante quanto parece.
Não compreendemos esse lapso de consciência, embora, quando dele acorda, a pessoa relata que teve um bom sono.
O paciente inconsciente emite um som característico conhecido como estertor.
Apesar de angustiante, este ruído traduz relaxamento, condição em que as bolhas de ar que entram e saem dos pulmões não o incomodam mais.
Indiferente, o moribundo não se dá ao trabalho de pigarrear para limpar a garganta.
No final da vida, haverá uma última expiração que não será seguida por inspiração. Às vezes, é algo tão suave, que o médico e os familiares não percebem.
A vida veio do nada e volta para o nada. Hospedada no corpo, ela corteja o médico. Ao se despedir dessa morada, leva consigo a compreensão de sua ausência.