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O negro gato do Estácio

Grande homenageado do Prêmio da Música Brasileira deste ano, Luiz Melodia, o negro gato do Estácio Holly Estácio, mantinha algumas ligações com o ...

Última atualização

Foto: Daryan Dornelles/Divulgação

Grande homenageado do Prêmio da Música Brasileira deste ano, Luiz Melodia, o negro gato do Estácio Holly Estácio, mantinha algumas ligações com o Espírito Santo, entre elas um filho (“Irã, eu estou contigo nego, meu filho tenha sossego”), amigos como Sérgio Sampaio e Rubinho Gomes, e volta e meia aparecia por aqui, para fazer shows ou não. Na primeira vez que o vi, ele chegou ao lendário bar Britz, isso em meados da década de 70. Vinha manso, calado, depois de se apresentar no Teatro Carlos Gomes.

Esticou aquela permanência por alguns dias, entre Vitória e Barra do Jucu, de modo que lá pela terceira ou quarta vez que apareceu no Britz, já foi recebido com certo desdém familiar: “Pô, lá vem aquele negão de novo!”. Contribuiu para esse tratamento o fato dele sentar à mesa de conhecidos, beber bastante, não falar quase nada e sair à francesa ignorando a conta.

Entre idas e vindas, num outro show que fez no Teatro Carlos Gomes, ele soube que Sergio Sampaio estava na plateia, a quem chamou para uma canja inesquecível e documentada, na época, pelo fotógrafo Vitor Nogueira. Fecharam a apresentação com a canção que Sampaio havia feito em sua homenagem: “Luiz Melodia, melhores dias virão… É só não botar a viola no saco, joga fora o guardanapo, vem comer com a mão”.

Melodia seguiu em sua escalada como compositor personalíssimo e intérprete cada vez mais afiado, transitando entre sambas, blues, choros e baladas, ajudando a enriquecer nosso cancioneiro com suas pérolas negras. Não é à toa que seu nome superou o de um mito vivo, João Gilberto, na escolha para ser o homenageado do 29º prêmio da Música Brasileira, em julho pós-Copa. E olha que João Gilberto, idoso, atravessa uma fase difícil, entre dívidas e complicações de saúde e disputas relativas a direitos autorais envolvendo ex-mulher e filhos, que não se entendem. Pensaram homenageá-lo até como forma de dar ao papa da bossa nova uma injeção financeira.

Voltando a Melodia, após a morte de Sergio Sampaio (1994), quando preparava seu disco ”14 quilates”, ele queria gravar algo inédito do amigo – os dois apareceram no cenário musical na mesma época, ali entre 1972/73. Numa noite, no restaurante Lamas, Rio, o guitarrista Renato Piau fez a ponte. Presenteou Melodia com uma fita do documentário Cachoeiro em Três Tons, pois ali havia a música Cruel, uma das últimas composições do autor de Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua. Melodia não só gravou Cruel naquele disco, tendo Piau e Perinho nos violões, como a regravou depois contando com o auxilio luxuoso de um coral dos meninos do Estácio.

Nos últimos anos, Melodia contava com o amparo harmônico de Renato Piau, um músico que também tem boas histórias pra contar. Imagina que Piau acompanhava Sérgio Sampaio, quando este subiu ao palco do Maracanãzinho, em 1972, para defender “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”, mas com aquela pinta de retirante nordestino foi barrado por seguranças, que duvidaram do seu papel de músico. Só foi liberado depois que o próprio Sampaio foi lá resgatar o violonista das mãos dos seguranças.

Tempos depois, Piau também integrou a famosa banda Vitória Régia, de Tim Maia, de modo que, por último, após a morte de Melodia, o pessoal da música começou a implicar brincando que ele se tornara a “viúva negra de MPB”, pois trabalhou com três grandes nomes da canção que “já encerraram suas carreiras aqui na terra”, como gosta de ilustrar o radialista capixaba Tarcisio Faustini.

Piau teve ainda um papel relevante na participação de Melodia no disco autoral “Independência ou Marte”, que gravei em 2012. Ele fez a ponte harmônica, de modo que numa noite de segunda-feira, debaixo de um temporal, os dois entraram num estúdio em Laranjeiras, Rio, para Melodia colocar a voz no samba-maxixe da faixa título. O detalhe é que pouco antes desta gravação – isso após outras tentativas infrutíferas – faltou luz no bairro, escuridão, desânimo, espera.

Quando estavam deixando o estúdio, a luz voltou. Melodia sugeriu adiar, Piau insistiu e conseguiu fazê-lo voltar atrás. Ele sabia que o negro gato costumava ser esquivo. Pena que não tenha tido mais sete vidas. Ou pelo menos alguns anos a mais.

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