Este título pode ser entendido de dois modos: o humano é sagrado ou há uma dimensão sagrada no humano. O sagrado não se identifica apenas com o divino, como no teocentrismo, mas pode haver uma sacralização do humano, como no antropocentrismo moderno.
Ocorre também de uma dessacralização oportunizar uma nova sacralização, como fizeram os cristãos ao ressignificarem a festa do Natal, de uma celebração romana ao deus Sol Invictus para o nascimento de Jesus.
E mesmo a festa cristã do Natal aponta para o inesgotável sentido existencial e histórico do divino e do humano, pois o Deus que se encarna no mundo relativiza a absoluta distinção de um sagrado, divino e transcendente, que se opõe ao humano, profano e imanente.
É impossível enjaular o sagrado numa definição absoluta. Afinal, o sagrado é imanente, transcendente, pessoal, impessoal, comunitário ou individual?
Obviamente, cada um considera a sua compreensão como a mais verdadeira.
O problema não é esse, o problema é desrespeitar a diversidade de pontos de vista, também quanto ao sagrado.
Por isso, ao se afirmar que nos tempos atuais há uma perda de sentido do sagrado ou uma ausência de vida espiritual, cabe ponderar se essa leitura não se fecha a outras vivências e interpretações sobre a presença do sagrado no mundo atual, como a incapacidade de perceber na experiência da dança ou da música num sentido não religioso do sagrado.
Diante da diversidade de compreensões, aprendamos com o papa João Paulo II a conviver com a diferença de experiências do sagrado.
Ele convocou líderes de diversas religiões para rezarem juntos em Assis no ano de 1986 e celebrar os 760 anos da morte do santo universal, Francisco de Assis. Afinal, é mais legítimo e promissor rezar junto do que construir um consenso sobre a definição de sagrado.
Após 25 anos desse evento, chamado de “Paradigma de Assis”, o papa Bento XVI convidou igualmente diversos líderes espirituais, mas acrescentou uma feliz surpresa: o convite a uma ateia humanista, a psicanalista búlgara-francesa Julia Kristeva.
O sagrado é uma experiência aberta universalmente aos humanos, sejam crentes ou não. Práticas como a meditação e as danças circulares contribuem para a nossa vida psíquica, além de serem modos de convivência, de atenção ao presente e de estímulo à intuição.
Essas práticas contemplativas resgatam tradições religiosas e são crescentemente reconhecidas em sua neuroplasticidade e capacidade terapêutica.
No entanto, não esqueçamos: religião e ciência são tipos distintos de conhecimento e compreensão da realidade, o que não significa que seja impossível um autêntico e producente diálogo entre esses saberes.
A racionalidade fechada nela mesma perde a seiva vital das sabedorias ancestrais e cheias de vida, mas frequentemente marcadas por cosmovisões uniformes, tornando profícuo o diálogo entre o acadêmico e o ancestral.
O espírito democrático limita quaisquer proselitismos no espaço público e não confessional.
Uma comunidade de fé implica numa definição do sagrado como signo de pertença a essa comunidade, mas essa definição não cabe generalizar-se para todos os cidadãos.
Daí que o espírito democrático na compreensão do sagrado se torna um laboratório de uma sociedade que caiba as diversas visões sobre espiritualidade.