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O temor como laço social

À moda de uma grande teia, nossa vida é tecida por fios de afeto, numa sucessão infindável de laços feitos e refeitos na família, no trabalho, nas ...

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À moda de uma grande teia, nossa vida é tecida por fios de afeto, numa sucessão infindável de laços feitos e refeitos na família, no trabalho, nas relações sociopolíticas e culturais. Não há conexão existencial sem afetos, que são sentimentos de caráter emotivo como amor, ódio, raiva, compaixão, admiração etc.

Neste tempo de hostilidades, ódios e intolerâncias crescentes, é de se perguntar quais fios afetivos estão a nos enlaçar com o outro. Infelizmente, parece que o temor tornou-se um dos principais laços sociais contemporâneos.

Os temores integram um conjunto variado de afetos que conformam as subjetividades, constituindo-se, assim, como influenciadores de nossa vida pessoal e coletiva, cuja relevância se modula de acordo com o espírito do tempo.

O temor deriva, entre outros, de nossa consciência de desamparo existencial e de três circunstâncias que, segundo Freud, corrompem nosso projeto de sermos felizes e vivermos em paz constante e perenemente, quais sejam: habitarmos um corpo que adoece, envelhece e morre; estarmos sujeitos a um mundo externo imprevisível e impiedoso; e inescapavelmente relacionarmo-nos com o outro, estruturalmente igual a nós, ou seja, agressivo e dominador.

Esse último fator é o mais importante para ativar e alimentar nossos temores, ainda mais em tempos nos quais exterminam-se e enfraquecem-se os valores civilizatórios de limitação das agressividades em prol de uma quantidade de paz e de níveis de humanidade que viabilizem um bem-estar possível e garantidor da continuação da espécie.

Um dos efeitos dessa atmosfera envenenada pelo temor é uma vida prisioneira da paranoia, oriunda do incremento de nossa percepção de desamparo diante da violência simbólica e concreta que nos atinge por todos os cantos, lados e redes.

É uma existência atravessada por ansiedade, nas palavras de Freud, “um estado particular de esperar o perigo ou preparar-se para ele, ainda que possa ser desconhecido”. Quando há “um objeto definido de que se tenha temor”, saímos da angústia e chegamos ao patamar do medo. E este objeto, numa sociedade hostil e intolerante, torna-se o nosso próximo.

As fobias, base de tantas intolerâncias e violências, são um caso à parte de temor, mas vale dizer que os fóbicos, em geral, temem o objeto de sua repulsa extremada exatamente por este fazer lembrar neles mesmos algo que eles insistem em esquecer, mascarar, eliminar. Recusando-se a mensagem insuportável, alveja-se o mensageiro – muitas vezes, por temores oriundos de preconceitos, ignorâncias e opressões em ambiente de déficits de liberdade e humanismo.

Aqui se chega a uma outra faceta a se pensar acerca das sociabilidades articuladas pelo temor: a gestão do medo como fator de controle da vida social. Para Norbert Elias, “a administração dos medos humanos é uma das mais importantes fontes de poder das pessoas sobre as outras. Uma profusão de domínios se estabeleceu e continua a se manter sobre essa base”.

Que, ao tecer nossas existências cotidianamente, possamos subverter a ordem presente e privilegiar os laços de fraternidade, lealdade, compaixão e amor. Pois, conforme professou Chaplin, em o Grande Ditador, “o caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém desviamo-nos dele. Precisamos de afeição e doçura! Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido”.

José Antonio Martinuzzo é doutor em Comunicação, professor na Ufes e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.

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