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Palavras e telas

É preciso prestar atenção nas palavras, que têm o poder de esclarecer ou ocultar, e ir além. Jethro Tull, à primeira vista, é apenas o nome sonoro de ...

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É preciso prestar atenção nas palavras, que têm o poder de esclarecer ou ocultar, e ir além. Jethro Tull, à primeira vista, é apenas o nome sonoro de uma banda inglesa de rock progressivo dos anos setenta. Trata-se de uma homenagem dos músicos ao agricultor inglês que em 1708 inventou a primeira máquina de semear puxada a cavalo.  As palavras que tanto expõem, podem também não revelar o talento de quem tem intimidade com elas ou outro tipo de arte.

A poetisa Emily Dickinson (1836-1886) foi uma espécie de Van Gogh (1853-1890) de saia e sem paletas, porém com igual força criativa usando a natureza como tema recorrente.  Viveram quase na mesma época num mundo lento e repleto de silêncio e sombras nos campos, antes da explosão da era industrial, e isso moldou suas obras, ao mesmo tempo em que engessou a distribuição, divulgação, o conhecimento a respeito. A poetisa escreveu centenas de poemas, só publicou dez, o pintor deixou seus traços em dezenas de telas, só vendeu uma. E somente após a morte é que ambos se tornaram celebridades.

Enquanto o “holandês louco” em seus delírios pintou e bordou, bebeu, cortou a orelha e tentou por fim à própria vida algumas vezes antes do desfecho com um tiro na barriga, Emily Dickinson abandonou o convento, por não acreditar em Deus, e viveu reclusa dedicada ao ofício de escrever poemas. Isso numa cidadezinha extremamente religiosa e conservadora dos EUA, Amherst, perto de Boston.Imagina. Nunca se casou, afastava pretendentes, possivelmente morreu virgem.

Se a poesia era o orgasmo de Emily, eis aí outra identidade com Gogh, que teve amantes, mas, tudo indica, se realizava mesmo diante das telas que hoje, nos museus do mundo afora deixam multidões em êxtase. Ah, aqueles girassóis, os corvos nos trigais, a aldeia na noite estrelada… Viveram num tempo mais lento, de carruagens, a solidão dos campos, cercados de costumes e valores provincianos, superstições e crendices, até a chegada da luz elétrica e dos pensadores iluministas.

E se de um lado havia romantismo e bucolismo, sem a penicilina, terapia apropriada e outros avanços da medicina, as pessoas sofriam por males hoje menores, e morriam cedo. Van Gogh era maníaco-depressivo, se medicava à base de absinto – originalmente uma infusão de vermífugo calibrada com álcool–, enquantoa poetisa sofria de problemas renais, provavelmente cálculos, tinha ataques terríveis.Sua terapia era bordar. Ou seja, Gogh pintava e bebia, Emily bordava e escrevia. 

Ele morreu com 37 anos, após agonizar dois dias. Se possível fosse, uma rápida remoção para uma clínica poderia salvar sua vida. Associado, claro, a um bom tratamento contra a bipolaridade. Ela morreu aos 50, e provavelmente uma intervenção a laser ou cirúrgica resolveria seu mal. Como cada um é resultado tanto das suas escolhas quanto das circunstâncias, mesmo sem reconhecimento em vida os dois fizeram o suficiente para alcançar a posteridade, ambição da maioria dos mortais.

Os quadros de Gogh, que morreu pobre, hoje valem fortunas, enquanto as poesias de Emily, que por muito tempo ficaram em suas gavetas, agora estão disponíveis em diversas edições disputadas e traduzidas por gente como Manuel Bandeira, Augusto de Campos e Paulo Henrique Britto. Recentemente, sua história veio à tona através do filme “Além das palavras”, que recebeu meticulosa reconstituição de época feita pelo diretor inglês Terence Davies. É um mergulho cerebral no universo e na solidão da poetisa finalmente consagrada. Pequena amostra: “Menos usa a natureza o amarelo/ Do que qualquer outra cor/ Guarda-o todo para o sol se pôr/ Pródiga de azul/ Qual mulher esbanja carmesim/ O amarelo, porém, é bem guardado/ Tão escasso e seleto/Como as palavras do amado”.

Sobre Van Gogh, há vários filmes contando sua história. O mais recente, “Com Amor, Van Gogh”, produção inglesa em cartaz, dirigido por Dorota Kobiela, se diferencia com os  cenários todos “pintados a mão” por dezenas de artistas plásticos reproduzindo  paisagens interioranas vivenciadas pelo pintor – nos seus últimos meses de vida –, além de suas telas . O filme, que levou seis anos até ser concluído e se tornou uma “experiência sensorial”, segundo a crítica, tem como fio-condutor a entrega de uma carta escrita pelo pintor, e compara as diferentes versões sobre seu suicídio, incluindo o não-suicídio. Num tempo em que se escreviam cartas, aquelas palavras revelaram mais sobre Van Gogh do que suas telas tão menosprezadas antes e tão valiosas agora.

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