- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Anúncio
Tribuna Livre

Perdemos a eleição

A afirmação de que “perdemos a eleição” não se deve à duvidosa qualidade dos candidatos à Presidência da República. Infelizmente, poderia listar ...

Última atualização

A afirmação de que “perdemos a eleição” não se deve à duvidosa qualidade dos candidatos à Presidência da República. Infelizmente, poderia listar várias características negativas de todos os candidatos.  (Foto: Divulgação )

Nenhum deles, à primeira vista, parece representar o que se espera e deseja do próximo presidente. Um é destemperado demais; outro, sem conteúdo e propostas, além do discurso intolerante; outra só aparece nas eleições; outro traz a reboque os partidos mais fisiológicos; outro já se admite como tutelado do ex-presidente condenado e preso… Enfim, a lista é enorme e nada auspiciosa. 

Esclareço, porém, que, como dito no início deste texto, o título não tem relação com os nomes à disposição do eleitorado. Nós não perdemos a eleição por falta de bons candidatos. Ao contrário, perdemos a eleição por carência de bons eleitores. Não perdemos pela ausência de melhores opções na urna eletrônica, mas pela escassez de pessoas sensíveis e sensatas para apertar os botões da urna. A derrota é nossa, de todo o povo brasileiro.

Quando tiros são disparados em direção à caravana de um ex-presidente, já condenado criminalmente, como tentativa de reprimir manifestações a ele favoráveis, o alvo atingido é muito maior do que um ônibus. Os tiros acertam o peito da nossa liberdade de expressão e manifestação política. Quando um candidato, que fomenta a todo tempo o discurso de ódio e sectarismo, sofre uma tentativa de assassinato em meio a um ato público de campanha, uma facada ainda mais violenta é desferida em nossa jovem e já combalida democracia.

O acirramento dos ânimos, o recrudescimento da divisão social “nós x eles” e a tentativa, historicamente ultrapassada, de separar a sociedade em “direita x esquerda” ou “capitalismo x comunismo” em nada contribuem para a pacificação das relações sociais, para a superação da crise política, econômica, social e, sobretudo, moral em que mergulhamos há tempos imemoriais e cujo fim não se enxerga sem enorme esforço de otimismo.

Nós já perdemos a eleição, mesmo antes de o primeiro voto ser computado na urna, por causa da incivilidade que tomou conta do atual processo eleitoral. Alastram-se nas redes sociais e em conversas por todos os cantos a pura agressividade, o deboche intolerante, a troca de acusações levianas, tudo para preencher o vazio deixado pelos rasos debates, pela ausência de um verdadeiro projeto de país (e não apenas de poder) e pela incapacidade de racionalizar as tomadas de decisões, o que faz com que nós, sociedade brasileira, ainda estejamos à espera de um “pai”, de um “salvador” que seja capaz de nos redimir das nossas misérias – que são muitas, sendo as morais as mais profundas.

Perdemos a eleição ao continuarmos alimentando esse anseio coletivo por um líder messiânico, o que prejudica e posterga a emancipação e a autonomia do nosso povo.

Perdemos a eleição quando não temos a humildade de reconhecer que a nossa verdade é apenas uma parte bem pequena da realidade. Quando não percebemos que a nossa opinião não é uma sentença suprema e definitiva a ser imposta aos outros. Quando não entendemos que todos, inclusive, os que estudaram menos, têm direito às próprias ideias, anseios e visões de mundo. Por outro lado, ganharemos as eleições quando, enfim, compreendermos que ninguém tem o privilégio da onisciência, que todos têm direito à luta por uma vida melhor e que a onipotência não está em um candidato, mas na soma de cada um de nós.

Carlos Fonseca é magistrado e escritor

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.