
Professo a fé reformada e arrepio-me só de pensar na possibilidade de uma interferência do Estado sobre as convicções religiosas de cada um. Entretanto, tendo a admitir a possibilidade de haver maior controle sobre a abertura de igrejas, em defesa do povo simples e da boa fé.
Assim como um fruto somente é consumido depois de maduro, passando antes por um processo que vai desde o preparo da terra, o plantio da semente e o cuidado com a árvore, partilho da ideia de que o título de pastor deveria ser conferido, assim como o de padre, somente a pessoas que tenham se submetido a formação específica de nível superior.
Talvez com um currículo comum de humanidades nos dois primeiros anos, sob regulação do Estado laico, com ênfase em história das religiões, filosofia, sociologia e ética, liberando-se os dois últimos anos para estudos mais específicos, com vistas à capacitação técnica e nas particularidades de cada grupo.
É justo reconhecer que algumas denominações, notadamente as chamadas igrejas históricas, já têm se preocupado em dar essa formação e submeter a sabatinas de um concílio os candidatos à liderança de rebanhos.
Com a popularização dos cultos religiosos chamados evangélicos, porém, esse tipo de comportamento tem sido flexibilizado, senão abandonado pelas organizações mais recentes, dando margem ao surgimento de lideranças sinistras como a do cabeleleiro que, a se considerar como definitivas e corretas as investigações policiais, teria abusado sexualmente e depois provocado a morte de um enteado e de um filho, ambos em tenra idade.
Necessário se faz abandonar o populismo e o oportunismo político e se promover uma discussão honesta e sincera desse tema. No desespero, muitas pessoas entregam-se aos cuidados de outras, bastando para isso que estas demonstrem certo “poder” com a divindade, o que, em muitos casos, não passa de truques facilmente desmascaráveis. O tabu da liberdade religiosa é a defesa salteadores e usurpadores da boa fé alheia travestidos de títulos eclesiásticos.
Há de se defender a liberdade de quem quer que seja praticar a fé que desejar, bem como o direito de as comunidades religiosas terem seus líderes internos, mas daí a ser pastor de rebanho é outra coisa.
Ainda que se considere que o pastoreio é um “dom divino”, esse dom precisa ser provado e o candidato testado e aprovado por um colégio de líderes experientes e de notório saber. E que o melhor modelo seja o do bom pastor, que deu a vida pelas suas ovelhas. Como no exemplo do jovem africano que arriscou sua vida para salvar uma criança em Paris neste final de semana. O que passa disso é enganação e espírito demoníaco.