
Talvez muitos nem se lembrem mais deste nome Valéria dos Santos, muito menos do episódio em que ela esteve recentemente envolvida.
Essa ausência de memória é reflexo, justamente, do não estarrecimento das pessoas com o fato em questão. Não houve comoção e não se registrou uma onda de inconformismo com o fato de Valéria dos Santos, advogada, negra, ter sido algemada por policiais no Rio de Janeiro, durante uma audiência, em setembro deste ano. Se houve, perdoem-me. Não notei. Se houve, talvez tenha durado pouco. Tempo insuficiente para chamar a devida atenção.
São estarrecedoras, e de consequências desastrosas, as constantes violações que os advogados vêm sofrendo no exercício da profissão. A advogada Valéria dos Santos “ousou” utilizar seus conhecimentos na defesa intransigente dos direitos de sua constituinte. A prisão dela ilustra bem como os direitos dos cidadãos vêm sendo violados Brasil afora. E traz um componente que a deixa ainda mais absurda: partiu da última fronteira da defesa de direitos, o Poder Judiciário.
O episódio deveria, sim, ter chamado a atenção de toda a sociedade, que, por sua vez, deveria, sim, ter se mobilizado. Foi a prisão de uma advogada em exercício, mas vai muito além do desrespeito a uma classe profissional. A comoção deveria ter ido muito além das notícias na imprensa e dos comentários indignados nos corredores de fóruns e tribunais pelo Brasil.
Era fundamental que toda a população demonstrasse veemente indignação com a situação. Essa falta de indignação serve para mostrar que ainda é preciso compreender que as prerrogativas da advocacia, com previsão constitucional, são prerrogativas da sociedade, que precisa, agora mais do que nunca, de voz, voz que, muitas vezes, é ecoada através da voz dos advogados. Profissionais que, com conhecimento técnico e destemor, ousam desafiar, em nome daqueles que não podem fazê-lo, e que, por isso mesmo, suportam mais do que outros os abusos de poder.
A atitude daquela advogada, de resistência ao arbítrio, é o que se espera de todos os advogados. Presa, algemada, mas não subjugada, ela mostrou-se maior do que seus algozes, que, diante da altivez da profissional do direito, lançaram mão da força bruta.
Mais preocupante ainda foi a justificativa do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro quanto a não ter a advogada acatado orientação na sala de audiência, esquecendo que todos, advogados ou não, magistrados de qualquer nível, estão submetidos ao direito, e só ao direito, não sendo obrigados a fazer ou deixar de fazer alguma coisa que não seja em virtude de lei.
Resta para nós, advogados, uma lição: é passada a hora de adotarmos a altivez no exercício da advocacia, indispensável para a realização da justiça e para a contenção do arbítrio. Precisamos dar um basta nas violações de nossas prerrogativas, enfrentando com desassombro e destemor, a exemplo de tantos que, em história recente, enobreceram a advocacia, como fez Valéria dos Santos.
Luiz Otávio Coelho é advogado e especialista em Direito Constitucional.