
Parece-me indiscutível que a luta entre tais correntes sempre foi acirrada, mas, como no decurso do tempo, “tudo muda e tudo se transforma”, por óbvio, radical metamorfose também ocorreu no campo das ideias.
Nessa mesma linha de raciocínio, constata-se que, diferentemente do que ocorria antes, raramente se ouvem, hoje, debates sobre a dicotomia: direita X esquerda. O que se verifica, efetivamente, é que foi substituída pela dicotomia honestidade X desonestidade, porquanto, em vez das expressões “fulano é de direita”, ou “beltrano é de esquerda”, o que, sistematicamente, se ouvem são as expressões “fulano é honesto”, ou “beltrano é desonesto”.
A respeito dessa mutação, urge uma pergunta, que ouso responder. Por que tal mudança tão radical? A resposta me remete à mentalidade patrimonialista, que consiste em fundir-se, confundir-se, misturar-se interesse público com interesse privado, e que, como característica da nossa pobre Cultura, por óbvio, revelou-se, de forma exuberante, sobretudo em dois significativos setores da Sociedade, que:
1º) – no Setor Político (objetivando a perpetuação no Poder); 2º) – no Setor Privado (por extrema ganância).
Do exposto são exemplos o “Mensalão”, o “Petrolão” e a “Carne Fraca”, sendo que o Setor Político, chefiado por petistas, apoiado na “base aliada”, falseou o silogismo do jesuíta Hermann Busenbaum, de 1645 e vazado nestes termos latinos: Cui finis est licitus, etiam media sunt licita (“Quando o fim é lícito, lícitos também são os meios), ou seja, se ilícitos os meios, ilícitos também serão os fins!
A propósito, atribui-se ao historiador florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) a afirmação de que “o que move a Política é a luta pela conquista e manutenção do Poder”, o que, sem ressalva, transforma em lícita ação ilícita, o que é inaceitável!
Lamentavelmente, o filósofo e matemático inglês, Bertrand Russel (1872-1970), filosofando, propagou que governantes, para se perpetuarem no Poder, devem ignorar princípios éticos e morais, ao dizer que: “Em realidade, deve fazê-lo com frequência, se quiser continuar no poder”.
Mais recentemente, o italiano Antônio Gramsci (1891-1937), político e jornalista, pregou, incisivamente, que, para se conquistar o Poder e nele se manterem, os fins justificam os meios”, como procedeu o PT até a decretação do impeachment de Dilma Rousseff.
Em outros termos, o PT, alicerçado na “base aliada”, desnaturou a antiga teoria – “os fins justificam os meios”- para perpetuar-se no Poder. Entretanto, se matar (meio) para não morrer (fim), é legítima defesa, subtrair verbas públicas (meio) para se perpetuar no Poder (fim) é crime, além da agravante de impedir-se a alternância no Poder, cerne do processo democrático, vedando-se, assim, a construção da Democracia.
Concluo, pregando que não basta sermos honestos e dizermos que somos honestos; é preciso, também, combatermos a desonestidade, sob pena de sermos coniventes com as ilicitudes que, frequentemente, ocorrem em torno de nós.
Salvador Bonomo é ex-deputado e promotor de Justiça inativo