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Tolerância: o próximo é você

Reconhecer que há coragens, destemores e desejos legítimos para além dos nossos medos, fobias e tabus. Mas talvez não haja assunto mais importante ...

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Reconhecer que há coragens, destemores e desejos legítimos para além dos nossos medos, fobias e tabus. Mas talvez não haja assunto mais importante sobre o qual falar atualmente do que o seu contrário, a intolerância.  (Foto: Divulgação)

Para evidenciar essa complexa situação, colocamos um título de dupla leitura neste artigo. Tolerar o outro em suas diferenças é reconhecer esse outro como um semelhante, um próximo, portador dos mesmos direitos e deveres que a mim cabem.

De outra sorte, ante o desastre da substituição de laços civilizados e leais pela luta livre no ringue da barbárie como cenário do cotidiano, o próximo a ser vitimado pela intolerância, em algum momento, é também você.

Dia a dia, vemos atacada a virtude da tolerância, louvando-se a intolerância como uma virtude às avessas, destinada a orientar a obra de uma era desumana. O desafio está exatamente em que os intolerantes têm certeza de que sua verdade é radical, definitiva, e deve ser imposta a todos, a qualquer custo. Além disso, os discursos intolerantes dialogam com a agressividade que em cada um de nós habita, mas que a cada um nós cabe enfrentar com coragem íntima, senso de civilidade e serenidade para a diversidade.

Locke assinala: “Aqueles que são de outra opinião fariam bem em considerar o quão perniciosa é a semente da discórdia e da guerra, quão poderosa é a provocação de ódios infindáveis, rapina e homicídios que eles têm até aqui fornecido à humanidade”.

Voltaire alerta: “O direito da intolerância é absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos”. Mas não se pode tratar desta virtude sem se colocar uma questão: tolerância tem limite? Norberto Bobbio é definitivo: “O único critério com base no qual se pode considerar lícita uma limitação da regra da tolerância é: todas as ideias devem ser toleradas, menos aquelas que negam a ideia mesma da tolerância”.

Ademais, o Artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos é categórico: “Todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. Fora disso, está o intolerável, no território das tiranias, dos dogmatismos, dos totalitarismos, com seus movimentos fascistas, racistas, homofóbicos, xenófobos, misóginos etc.

Como se percebe, a tolerância diz respeito a questões de opinião e sua face contrária, a intolerância, está em mal lidarmos com a variedade de “verdades” a orientar a vida. Nuccio Ordine tem a palavra final: “Sem a negação de uma verdade absoluta, não há espaço para a tolerância.

Somente a consciência de sermos destinados a viver na incerteza, só a consciência de estarmos expostos ao risco do erro pode nos permitir conceber um autêntico encontro com os outros, com aqueles que pensam de maneira diferente da nossa. Por essa razão, a pluralidade de opinião, de línguas, de religiões, de culturas, de povos, deve ser considerada como uma imensa riqueza da humanidade e não como um perigoso obstáculo”. Afinal, e até porque, o próximo é você.

José Antonio Martinuzzo é pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória

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