por: Edebrande Cavalieri
“A verdadeira alternativa ética está nesta capacidade de unir e reunir”
Sociedades em crise são como náufragos perdidos no mar buscando algum tipo de boia para evitar o afogamento. Na sociedade brasileira contemporânea esta imagem nos parece muito verdadeira.
Sem lideranças que convoquem para um pacto moral e ético, o que mais se tem visto são pactos de autoproteção afundando ainda mais as possibilidades de salvação neste mar revolto. Salve-se quem puder!
A própria reforma política tão desejada não passará além da margem de um pacto de autoproteção.
Diante deste cenário tão sombrio, algumas alternativas de salvação se apresentam na mídia arvorando-se no direito de impor a todos uma tábua de salvação. Se não há pessoas que podem ser consideradas uma reserva ética e moral em termos de vida e conduta política, alguns personagens entrincheirados no poder assumem o discurso da ética apresentando-se como porta-vozes da salvação. Muitos caem neste engodo de aproximação entre poder e ética, achando que assim salvarão a nação. Trata-se de um artifício do poder para instrumentalizar seu exercício objetivando passar uma imagem para a sociedade de algo novo no horizonte do poder. Seriam os atuais “sepulcros caiados”, hipócritas.
Outro grupo de senhores do poder acredita que o caminho será de uma reconstrução retroativa, restaurando valores tradicionais de uma pauta moral ultraconservadora e ultrapassada. O meio religioso alimenta profundamente estes senhores do poder clamando a Deus pela salvação da nação, e invocando seu Nome nas votações do Congresso. É um desastre para as Igrejas a união política em torno de pautas morais. Não conseguem alcançar a dimensão da loucura e da perversão deste modelo de organização social. A religião deixou de ser um instrumento de organização da sociedade e da cultura há muito tempo. Somente o fundamentalismo evangélico e o integralismo católico ainda pensam que este modelo seja possível nos dias atuais. Estes estão nas igrejas, mas o Deus que professam está dentro de si mesmo; rezam apenas para a sua prosperidade, a sua cura, a sua felicidade. Este Deus está morto e nada fará para a salvação dos náufragos da política nacional.
A terceira via ética é o grande desafio neste naufrágio. Há botes salva-vidas e há boias, mas o mar é repleto de correntes. Em poucos minutos, cada um em seu bote ou sua boia estará distante dos demais. Todos se perderão, pois não serão vistos de cima ou de baixo. A união de todos os náufragos evitando a dispersão é a única alternativa que eles possuem para serem vistos e serem salvos. A verdadeira alternativa ética de salvação nacional está nesta capacidade de unir e reunir, estabelecer laços sociais e de segurança e coragem. O desespero será a morte.
A salvação da nação naufragada é de uma união ética que põe acima de tudo, inclusive do próprio poder, a vida do grupo. É por isso que a aproximação e instrumentalização da ética feitas na estrutura do poder político são altamente perigosas. Pode fazer morrer a única alternativa de salvação que estava ainda nas mãos do povo. O comandante não tem mais lugar neste momento de naufrágio. O povo não pode mais estar perto daqueles que levaram ao naufrágio a nação inteira dos mais pobres. A ética salvará a política desde que conduzida pelo povo e em nome do povo. Ao Rei agora não resta mais alternativa senão a guilhotina eleitoral.
Edebrande Cavalieri é doutor em Ciências da Religião e professor de Filosofia da Ufes
