por: Marcílio R. Machado
“A economia real dá sinais de cansaço de esperar e tenta avançar”
A cada manhã, uma das primeiras coisas que tenho feito nos últimos três anos, é ler as notícias através do smartphone. No meu consciente existe sempre a mesma dúvida sobre qual será o novo escândalo no Brasil, qual o próximo político ou empresário a ser denunciado ou preso. Ao acompanhar as notícias, toda a esperança de algo melhor se desvanece.
Assistimos a um ex-presidente negar conhecer um documento encontrado em sua casa, o procurador da República solicitar a revogação da imunidade dos delatores da JBS; o Senado aprovar um fundo partidário no valor de R$ 1,7 bilhão; as investigações da Lava Jato mostrarem que leis foram compradas dentro do Congresso Nacional, inclusive a Resolução nº 13, de 2012, que reduziu a alíquota interestadual do ICMS de mercadoria importadas para 4%, que tanto afetou o estado do Espírito Santo e seus municípios.
Nesse ínterim, retomo a leitura do texto “Esperando Godot” de Samuel Beckett. Na peça, os personagens ficam resignados à espera. No Primeiro Ato, dois amigos – Estragon e Vladimir – se encontram e chegam à conclusão de que não há nada a fazer naquele lugar. Lá, eles estão esperando por um sujeito chamado Godot. Logo no início, Estragon mostra a inutilidade da presença deles. Os dois personagens conversam apenas para passar o tempo, pois tudo depende da vinda de Godot. No Segundo Ato, é destruída toda e qualquer esperança da chegada dele. Mesmo assim, cada ato termina com a frase que conclama que ele manda dizer que: “não virá hoje, mas virá amanhã”.
Como na peça de Beckett, percebemos que, no Brasil, a crise vai se desdobrando, sendo um dia quase igual ao outro e parece não haver nada a fazer que esperar. Esperar por que e pelo quê? Pelas eleições em 2018? Que o Congresso seja amplamente renovado? Que a credibilidade nas instituições seja reestabelecida? Que os responsáveis pela crise financeira e moral, pela qual passamos, sejam definitivamente punidos?
Com o decorrer do tempo, temos a sensação de que estamos cercados por áreas de escuridão. A fraude de corrupção e má gestão nos fundos de pensão estatais da Previ, Petros, Funcef e Postalis sendo pagas por parte dos seus servidores. O governo abrindo procedimento para investigar o financiamento da construção do porto de Mariel, em Cuba, construído pela Construtora Odebrecht. Muitos falam para esperar. Enquanto isso, nosso Estado e suas empresas perdem competitividade pela falta de investimento em porto com um calado adequado que possa receber navios maiores transportando contêineres.
Diferente da imagem dos dois personagens de Beckett, que mostram que a esperança é pura ilusão, a economia real dá sinais de cansaço de esperar e tenta avançar. A Bolsa de Valores atinge um nível recorde, a inflação encontra-se sob controle e a balança comercial atinge um superávit, acumulado nos oito primeiros meses do ano, de US$ 48,109 bilhões, alta de 48,6% sobre o mesmo período de 2016. No Espírito Santo, os empresários atuam para fortalecer a região como um grande centro de distribuição de produtos da Zona Franca de Manaus e buscam alternativas de serviços de cabotagem entre os portos. Além disso, a indústria projeta um crescimento significativo ainda este ano. Tudo isso prenuncia boas expectativas para o crescimento do PIB em 2018. Nem tudo está perdido, Estragon!
Marcilio R. Machado, presidente do Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Estado (Sindiex)
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