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O crime e a infância

por: Michelli Possmozer "Viam o traficante como uma figura de sucesso, um personagem empoderado que eles gostariam de ser no futuro" E quando o ...

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por: Michelli Possmozer

 

“Viam o traficante como uma figura de sucesso, um personagem empoderado que eles gostariam de ser no futuro”

 

E quando o tráfico de drogas faz parte das brincadeiras da infância? Há quem diga “ele é só uma criança”. Mas, e se eu disser que alguns dos jovens que hoje estão envolvidos no tráfico, muitos marcados para morrer por conta das rivalidades com gangues, por volta de seus 7,8 anos, brincavam de polícia e traficante ou até de boquinha de toddy?

Foi o que descobri no decorrer da pesquisa de campo para a minha dissertação de mestrado, cujo título é “Tráfico de drogas: o mercado que adota crianças e não dispensa trabalhadores”, defendida no dia 31 de maio deste ano.

Nesta pesquisa, conversei com jovens que, quando crianças, não estavam envolvidos no comércio de drogas, entretanto, fantasiavam comercializar entorpecentes a serem vendidos por R$ 0,50, R$ 1 em saquinhos plásticos, contendo leite em pó e achocolatado, daí o nome boquinha de toddy.

De acordo com o jovem de 18 anos que afirmou ter brincado muito disso no pátio da escola, “era como um traficozinho que rolava”.
Outros entrevistados admitiram que observavam de longe os traficantes com arma na cintura e cordões de ouro no pescoço e os enxergavam como um espelho. Isto é, com a cabeça ainda de meninos imaturos, que não conseguiam avistar além do que já estava posto, viam o traficante como uma figura de sucesso, um personagem empoderado que eles gostariam de ser no futuro.

Só que com a mente de menino, eles não tinham dimensão dos riscos, de como seria ter que passar a juventude se escondendo dos inimigos e da polícia, de que teriam que aprender a manusear uma arma, não só para se sentirem poderosos ao carregá-la na cintura, mas também para utilizá-la quando preciso, já que nessa vida de crime eles aprendem cedo que é “matar ou morrer”.

A mente de menino também pode levar algumas crianças a pensarem que no tráfico irão ganhar “um dinheiro fácil”.

No entanto, ao chegar na juventude, quando já estão envolvidos no crime, eles percebem que a vida fácil não passava de uma ilusão, pois como disse a autora Vera Malaguti Batista, são “difíceis ganhos fáceis”, na medida em que toda a liberdade de ir e vir é cerceada em função de uma atividade ilícita que, após assumi-la, dificilmente enxergam um meio de sair dela.

Isso porque, mesmo que abandonem o tráfico de drogas, como seguir uma vida normal após ter recebido o estigma de traficante ou de jovem infrator? Ao circular por bairros da Grande Vitória, sobretudo próximo a escadarias e becos, onde a atuação do tráfico de drogas é mais visível, não é raro encontrar crianças brincando com armas artesanais, muitas vezes, feitas por elas mesmas, com pedaços de madeira e com canos.

E a pergunta que me fiz ao presenciar esse cenário e ouvir as histórias recorrentes foi: o que levou e leva essas crianças a adotarem um repertório do crime em suas brincadeiras?

É claro que, associado à intensa presença no tráfico de drogas nas comunidades, há uma série de fatores, subjetivos e sociais, que levaram, por exemplo, o menino de 8 anos que brincava de boquinha de toddy na escola a ser hoje um trabalhador do tráfico.

Entretanto, esse cenário traz um alerta de que precisamos olhar mais para a infância e pensar políticas públicas que atuem no imaginário infantil de modo que este esteja cada vez mais distante de um repertório do crime.

 

Michelli Possmozer é jornalista e mestre em Ciências Sociais

 

A seção Tribuna Livre é publicada diariamente no jornal A Tribuna. Colaborações para a coluna devem ser enviadas para [email protected]

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