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Por que é tão difícil amar o próximo?

por: José Antonio Martinuzzo * “Ame ao seu próximo como a si mesmo”, disse Jesus a um questionador “doutor” da Lei, em sua passagem por Jerusalém, ...

Última atualização

 

por: José Antonio Martinuzzo *

“Ame ao seu próximo como a si mesmo”, disse Jesus a um questionador “doutor” da Lei, em sua passagem por Jerusalém, afirmando que, ao lado do “amar o Senhor seu Deus com todo o seu coração”, “não existe outro mandamento mais importante que esses dois”, conforme São Marcos, 12.
Dois milênios depois dessas palavras, e tendo o cristianismo forjado um tempo histórico planetário, experimentamos uma assustadora era de desamor a fazer sangrar a humanidade, seja a poder de projéteis, seja por efeito de posts midiatizados. Por que é tão difícil amar o próximo?

Freud, no magistral O Mal-Estar na Civilização, acerca do “calvário” que é a vida cerceada pelos ditames civilizatórios – não obstante seja essa a única possibilidade de “salvação” do animal que se humaniza exatamente pelos limites impostos à sua agressividade inata e para sempre a atravessar sua carne selvagem –, crava: “De fato, se esse grandioso mandamento dissesse: ‘Ama teu próximo assim como ele te ama’, eu nada teria a objetar”.

“As pessoas gostam de negar que o ser humano não é uma criatura branda, ávida de amor, que no máximo pode se defender, quando atacado; mas sim que ele deve incluir, entre seus dotes instintuais, também um forte quinhão de agressividade. Em consequência disso, para ele o próximo não constitui apenas um possível colaborador e objeto sexual, mas também uma tentação para satisfazer a tendência à agressão, para explorar seu trabalho sem recompensá-lo, para dele se utilizar sexualmente contra sua vontade, para usurpar seu patrimônio, para humilhá-lo, para infligir-lhe dor, para torturá-lo e matá-lo”, anunciou Freud.

“A existência desse pendor à agressão, que podemos sentir em nós mesmos e justificadamente pressupor nos demais”, escreveu, “é fator que perturba nossa relação com o próximo e obriga a civilização a seus grandes dispêndios”. Resta dizer que, para Freud, civilização “designa a inteira soma das realizações e instituições que afastam nossa vida daquela de nossos antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si”.

Corajosamente, Jesus veio falar da imperiosidade do amor fraterno no estabelecimento dos vínculos entre os homens, como uma necessidade de salvação, aqui e na eternidade. Não sem tal coragem, Freud veio alertar para a dificuldade essencial do amar ao próximo. De toda sorte, o Pai da Psicanálise não deixa de salientar que quanto mais distantes estamos de enxergar o outro como alvo de gestos civilizados, tanto mais forçamos os passos rumo à barbárie que nos aproxima dos “nossos antepassados animais”.

Divergências à parte quanto à operacionalidade e ao objetivo dos laços de irmandade entre nós, o fato é que sem a atitudes harmoniosas não há vida civilizada que se constitua, se preserve e se mantenha ao longo dos tempos. Saber de nossas dificuldades de amar o próximo não justifica os desamores (fome, pobreza, assassinatos, corrupção, ódios, intolerâncias…), antes, pelo contrário, deixa evidente nossa necessidade de investir e persistir na efetivação de uma cultura de fraternidade, sob o risco de inviabilizarmos nossa sobrevivência como espécie.

José Antonio Martinuzzo é pós-doutor em Mídia e Cotidiano, doutor em Comunicação, professor na Ufes e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.

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