por: Sergio João Ferreira Lievore
“Quem comete uma crueldade contra um animal não terá constrangimento em maltratar um ser humano”
Há alguns meses, chegou à porta do posto de saúde do bairro Honório Fraga, em Colatina, uma cadelinha. Um funcionário que a viu ficou com pena porque parecia que estava com fome. Deu-lhe um resto de leite, que estava na geladeira. No dia seguinte, ela estava de volta.
As crianças que brincavam no pátio em frente logo fizeram amizade e, por seu jeito meigo, ficou conhecida como Formosinha. Havia, entretanto, um problema, encontrar quem pudesse adotá-la.
Estima-se que, no Brasil, haja quatro milhões de animais abandonados nas ruas das cidades. Desprezados pelo poder público, que na maior parte das vezes os deixa relegados à própria sorte ou os extermina, traduzem a amarga face do descaso para com a dignidade da vida animal.
Associações de beneméritos que se esforçam por protegê-los fazem o máximo com poucos recursos vindos de pessoas bem-intencionadas e de empresários com compromisso ético.
Normalmente, nos bairros mais humildes, onde vive a maior parte dos animais abandonados, a população se compadece e lhes dá comida, mas ficam sem assistência sanitária.
Surgem daí problemas de saúde pública, pois podem transmitir doenças graves, como leishmaniose, raiva e toxoplasmose. Uma proposta seria o poder público subsidiar clínicas veterinárias para os tratarem. Ainda mais importante seria a castração em larga escala dos animais abandonados, como alternativa humanizada à proposta cínica e cruel de simplesmente eliminá-los.
Entre as medidas práticas viáveis para ajudar a salvar essas vidas estariam as campanhas de adoção, que poderiam ser estimuladas caso os adotantes recebessem alguns auxílios, como assistência por veterinários e remédios para tratar os bichos.
As campanhas poderiam estimular o lema “não compre, adote”, de modo a que os interessados recebessem em suas casas animais que sofreram com o abandono. Em minha casa, temos três cadelas vira-latas que foram surgindo em nossas vidas. Elas brigam e, às vezes, destroem alguma planta, mas nos trazem grande alegria.
O abandono se agrava nos períodos de férias, quando muitos donos, pessoas cruéis e irresponsáveis, desamparam seus animais porque querem viajar e não têm quem tome conta deles. Este comportamento é ilegal e pode ser punido com multas altas, além de constituir crime de maus-tratos contra animais. Seria significativo que se criasse uma cultura de repressão contra o abandono, com denúncias e punição aos infratores.
Igualmente repulsivos são indivíduos que os maltratam, muitas vezes impunemente. Quem comete uma crueldade contra um animalzinho não terá qualquer constrangimento em maltratar um ser humano.
A história de Formosinha teve final feliz. Uma família parente de alguém da região a adotou. A última notícia que se teve dela foi de que estava bem; e aparecia numa foto em que se mostrava feliz, ladeada por duas crianças.
Há, entretanto, milhões de animais em condição de abandono que precisam de assistência e de pessoas generosas que se disponham a cuidar deles. É um problema complexo cuja solução é igualmente complicada, mas pode ser superado com esforços do poder público e da sociedade.
Sergio João Ferreira Lievore é auditor de controle externo e doutorando em Direito pela Universidade Nova de Lisboa.
A seção Tribuna Livre é publicada diariamente no jornal A Tribuna. Colaborações para a coluna devem ser enviadas para [email protected]
