por: Kleber Galvêas
“Era frustrante ver (Massena) com energia, no ápice da carreira, impossibilitado de produzir”
Sou capixaba, mas não nasci (1947) com o espírito santo. Fui criança encapetada: em São Mateus participei (1953) de procissão em homenagem a N.S. das Graças, que guiou pelas minhas tripas um canivete que havia engolido; em Dores do Rio Preto (1954), do alto do morro, rolei pneus que racharam paredes de casas e arrebentaram telhados; em Vila Velha (1955) defendi com paus e pedras nosso sobrado, que era o único, no centro da cidade (ainda está de pé, na rua António Atayde, 521) dos ataques tipo “Forte Apache”, da turma da Prainha.
Na campanha do Juscelino Kubitschek causava espanto, não só pela correção na grafia do nome do candidato, mas também pelas molduras dos meus outdoors, feitos com carvão nos muros branquinhos dos vizinhos.
Fui o mais arteiro da família, um problema para muita gente, especialmente para minha mãe que me castigava.
Mas, compreensiva e inteligente, conseguiu orientar minha energia e criatividade. Ela, que havia estudado pintura com a Irmã Teresa, no Colégio do Carmo, Vitória, obtinha boas tréguas me oferecendo material para desenhar.
No Marista de Vila Velha, inaugurado em 1954, estudei de 1955 até 1966, sempre aprontando. Meu recorde em castigos na escola jamais será batido!
Ali, em 1965, junto com o Ir. Garrido e o colega Atyla Quintaes Freitas Lima, fundamos, como voluntários, antes do Mobral, um curso gratuito de alfabetização de adultos. Essas atitudes equilibravam minha situação.
Na hora de escolher um pré-vestibular, aos 17 anos, falava em ser pintor. Minha mãe me aconselhava: “Vá até a casa do Massena e converse com ele. Se você voltar com a mesma ideia, ótimo.”
Fui várias vezes. Chegando lá, encontrei uma grande obra, rebento tropical do impressionismo antropofágico, devorado no Rio e na Europa: paisagens magníficas com técnica aclimatada ao nosso ambiente. Entretanto, o artista vivia remediado, graças a uma pensão federal conquistada por mérito depois dos 80 anos. Esse quadro matava qualquer vocação. Quase desisti.
Autor da maior coleção de pinturas no Palácio Anchieta; único pintor brasileiro com obra na Sala da Presidência no Palácio do Planalto, de Juscelino a Sarney; representado nas nossas embaixadas de Paris e Londres; com obra no Palácio do governo francês, adquirida por de Gaulle; fundador da EBA-ES, hoje Centro de Artes da Ufes; Massena é também o autor da pintura do teto do Teatro Carlos Gomes.
O Mestre tinha muitos méritos, mas precária condição de vida. Era frustrante vê-lo com energia e vontade de trabalhar, no ápice da carreira, impossibilitado de produzir.
Suas telas de rara qualidade, baratas, elegantes, decorativas, documentais, embora um ótimo investimento, ficavam estocadas, empilhadas, sujeitas aos inconvenientes decorrentes não só da falta de exposição em paredes para apreciação, mas da falta de conservação. A pequena demanda inviabilizava a produção.
Para me animar, ele dizia: “Somos como imigrantes em terra inculta (florestas). Minha geração desbravou, a sua deve plantar, para que as próximas possam produzir em melhores condições e quiçá colher.”
Oxalá! O fato é que continuamos plantando…
Kleber Galvêas é pintor
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