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Vaquinha jurássica

O Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio, precisa inicialmente de R$ 30 mil para restaurar a reprodução em madeira de um esqueleto de dinossauro ...

Jornalista, músico e colaborador do Tribuna Online

Última atualização

O Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio, precisa inicialmente de R$ 30 mil para restaurar a reprodução em madeira de um esqueleto de dinossauro atacado por impiedosos cupins. Vai apelar para uma moderna vaquinha eletrônica, a tal crowdfunding, na expectativa de arrecadar um total de R$ 100 mil. Passado e futuro presentes. Não é barato manter esqueleto fake, assim como quase sempre aparece na conta um adicional, um aditivo, uma taxa, é o chamado custo Brasil. E os incomodados que se mudem: quem tem bala na agulha vai pra Portugal, Miami etc., e quem não tem se vira nos trinta por aqui mesmo.

Desde que o mundo é mundo e o homem deixou as cavernas, as pessoas fazem vaquinhas para promover festas, ajudar parentes e amigos necessitados. Vaquinha também tem a ver com infância e um pouco daquele clima do poema do Casemiro de Abreu. Não há menino que não recorreu a uma vaquinha para situações triviais, como comprar uma bola de verdade para substituir as bolas de meia, aquelas que não quicam e deformam a todo instante.

Outrora, nas peladas no alto do morro do Recanto, em Cachoeiro, economizamos durante um mês juntando dinheiro para comprar uma bola de couro número dois. Imagina que hoje qualquer menino de periferia tem uma bola oficial da seleção – réplica, é claro – aos pés. Porém, falta a ele o que tínhamos de sobra: o espaço dos terrenos baldios que foram tomados e cimentados pelo adensamento urbano. Hoje, no alto do Recanto, não restou um só campinho de terra para contar história.

Agora, a vaquinha também serve para financiar obras de autores que não conseguem bancar uma produção, que não passaram pelo funil das editoras nem lograram êxito nos complexos editais de cultura. Aliás, edital de cultura virou uma solução para os programas oficiais de incentivo, pois evita a fila de pretendentes e estabelece um filtro automático. Mas tem o outro lado, pois inibe os criativos e avessos ao ritual burocrático. Já há no mercado pessoas especializadas em preencher editais de cultura, ganham a vida com isso. Mesmo entre esses especialistas, existe um entendimento unânime: editais foram feitos para você desistir dele.

Neste ano, o TSE autorizou o financiamento de campanha eleitoral via crowdfunding e a arrecadação teve início a partir de 15 de maio. Negócios e oportunidades: começam a surgir no mercado empresas especializadas nesse tipo de arrecadação, que ajudam a entender as regras e dinâmicas de ação que precisam ser seguidas pelos candidatos. Ou seja, a vaquinha eletrônica agora entra no curral eleitoral, empurrada pela ausência do financiamento empresarial, que é cheio de vícios e toma lá, dá cá. Vide JBS, Odebrecht e companhia sob os respingos da Lava-Jato. Se a vaquinha eleitoral tem futuro e vai engordar caixas de campanha, ainda é cedo para dizer. Já a alternativa do financiamento público, até hoje mal formatado e explicado, pelo menos nesta campanha já foi para o brejo antes mesmo da vaquinha.

O perigo que existe no avanço da vaquinha eletrônica é virar panacéia para todas as necessidades e males possíveis. Como se já não bastasse a pesada carga tributária, o pedágio que se paga nos contratos ariscos, nas ruas comprimidas por flanelinhas e agentes do rotativo, para a segurança do quarteirão, para os milicianos de plantão… E como estamos próximos da Copa do Mundo na Rússia, não se espante se surgir alguma vaquinha para tutorial destinado a esmiuçar o pós-fissura no dedinho do pé do Neymar. O País de chuteiras não pode conviver com mais esta dúvida atroz. A propósito, a Seleção do Tite mais parece uma legião estrangeira. E topas uma vaquinha para um bolão sobre quem irá levantar o caneco?

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