Verão, tempo de modismos, vanguarda e também retrocessos. Modas: posar para fotos boiando no mar, visitar praias exóticas, fazer enquete sobre assédio e o julgamento do Lula, assistir ao festival de filmes sobre Winston Churchill, o polêmico semideus inglês da Segunda Guerra Mundial. Porém, a mais ruidosa manifestação típica da estação, além das cantoras trans, é o mini trio elétrico, carrinho movido por controle remoto que circula pelas ruas tocando música, fazendo propaganda, etc. Há limites quanto ao volume, mas quem há de fiscalizar isso? É mais uma daquela série: quem segura o segurança, quem vigia o vigilante?
Outro perigo do mini trio elétrico é quanto à qualidade do que é executado. Desde há muito as ruas, praças e praias são tomadas por veículos dotados de enormes caixas de som, que se digladiam para ver quem tem mais potência. Outra bomba pronta para atentados sonoros são aqueles aparelhos portáteis. O que esses carrinhos bombados e aparelhos têm em comum: o gosto discutível do que é executado, normalmente funk, axé, breganejo, pancadão. Em alguns circuitos, até rola um Tim Maia, uma Rita Lee, Zeca Pagodinho. Já melhora bem, mas Jobim, Bill Evans, Miles e Chico Buarque, é pedir muito, passam longe.
Embutindo natural delay de todo modismo, prepare-se. Cedo ou tarde as areias da Bacutia, Curva da Jurema e Camburi serão invadidas pelos mini trio elétrico. É impressionante como a nossa educação musical anda em baixa. Se há numa solenidade oficial e toca o belo Hino do Espírito Santo – “Surge ao longe a estrela prometida, que a luz sobre nós quer espalhar…”, a maioria – muitas autoridades no meio — se cala, alguns balbuciam versos, outros fazem cara de paisagem, e fica nisso. E o que dizer da população bombardeada diariamente por duplas sertanejas ou letras declamadas ao som de algum ritmo pobre e repetitivo? Melodias e harmonias ignoradas impera o som tribal do baticum, parece que estamos retrocedendo à Idade da Pedra, ainda que eletrônica e tecnologicamente de ponta.
Vale reprisar conhecido episódio de um famoso violinista americano colocado anonimamente por uma emissora de TV, na porta do metrô em Nova Iorque. Ficou ali tocando, como fazem tantos músicos, amadores ou não, umas duas horas, ninguém deu a menor bola. Exceto dois gatos pingados, que pararam por instantes admirando o músico, deixaram uns trocados e foram embora. Não deixa de ser uma boa pauta para os telejornais locais, que nesta época, mais do que nunca, abusam das matérias de serviço sem graça – como tirar mancha da roupa ou eleger a musa do samba –, em detrimento de notícias, informações e análises.
Em matéria de retrocesso, não devemos ignorar a polêmica sobre assédio sexual. A cada dia, tem diretor de cinema ou fotógrafo exposto como besta-fera. Quando não é o pai filmado brincando com filha de um jeito que dá margem às ilações de assédio. Hoje, é mais perigoso ser preso acusado de assédio do que roubar zilhões dos cofres públicos. A atriz Catherine Deneuve, a bela da tarde do cinema francês, colocou uma questão interessante. Em outras palavras, disse que desde que o mundo é mundo o assédio existe, seja no lar, trabalho, na rua, na chuva, na fazenda. É claro que há excessos, aberrações e agressões, mas estamos incorrendo no risco da generalização, de colar tudo na conta do machismo. Chega a transparecer certo puritanismo quase medieval. Ela opina que no ritmo que vamos, qualquer brincadeira ou galanteio, por mais ingênuo ou romântico que seja, poderá ser interpretado como assédio.
Já Brigitte Bardot, a eterna musa de Búzios, posicionou suas lentes em outra direção, mais exatamente sobre o famoso teste do sofá. Ela conta que o assédio nem sempre parte do diretor ou ator, mas de atrizes e aspirantes que se jogam pra cima dos caras almejando, claro, um papel, de preferência, protagonista. Isso rola desde que rola o show business do entretenimento. Há ainda outro lado pouco abordado: o ator que se insinua para a atriz ou assistente que tem outra preferência sexual. Ela, ofendida, de verdade, denuncia o ator por assédio, vira ruidoso case homofóbico. Heterossexual que já entrou num ambiente dominado por mulheres gays sabe bem como elas fuzilam o sujeito só no olhar.
Então, hoje, um galanteio sussurrado pode dar BO e fazer barulho enorme. Maior até que esses mini trios elétricos e aparelhos portáteis. A propósito, em Vila Velha a principal reclamação dos moradores, registrada atualmente pela Ouvidoria-Geral da Prefeitura, não está relacionada à segurança, assédio, nada disso. Maioria reclama que vizinhança, casas noturnas, quiosques e certas atividades de serviço, tipo lava-jato, seguem na cadência daquele bordão do sambista Arlindo Cruz: “Faz barulho aí”.