Dois hospitais do Estado – o filantrópico Evangélico e o estadual Dr. Jayme dos Santos Neves – testaram a eficácia de um corticoide chamado dexametasona para salvar pacientes internados com Covid-19 em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
As pesquisas fazem parte do grupo Coalizão Covid Brasil, que envolveu outros hospitais que, juntos, testaram 299 pessoas – não há divulgação dos números capixabas. A expectativa é que os resultados sejam divulgados em agosto numa revista científica.
O médico intensivista e pesquisador do Hospital Evangélico de Vila Velha, Gedealvares Francisco de Souza, explica que os corticoides podem inibir imunidade nas doenças auto imunes – como lúpus e artrite reumatoide – e processos inflamatórios. É no segundo caso que ele se liga à Covid-19.
“Sabemos que a Covid ataca o pulmão através de uma lesão inflamatória exacerbada. É uma tempestade inflamatória. Na tentativa de buscar meios de conter essa resposta, a dexametasona age controlando o processo inflamatório”, explica o pesquisador.
Normalmente, segundo Gedealvares, a dexametasona é usada em casos de crises e descompensação.
Não à toa, o estudo foi voltado para casos graves. Doutora em genética e gerente do centro de ensino e pesquisa do Hospital Evangélico, Ana Carolina Ramos, explica que as testagens começaram há três meses nos casos mais urgentes.
“É porque havia indícios de resposta, sobretudo nos pacientes entubados. E a entubação é agressiva, muitos já estavam sedados”.
A pesquisa, que foi coordenada por Renata Vicente da Penha, foi feita apenas em pacientes maiores de idade, devidamente comprovados com a infecção da Covid-19 e precisando de ventilação mecânica. Era necessária uma autorização dos responsáveis.
Metodologia
Os participantes foram divididos em dois grupos: aqueles que tomaram dexametasona por 10 dias – o chamado grupo experimental – e os que não tomaram – o grupo de controle. O hospital Evangélico não informou a quantidade receitada nos testes.
“Estamos otimistas e teremos respostas para perguntas como: o remédio diminui o tempo de intubação? Será que o paciente volta a respirar sem aparelhos mais rápido? Será que a mortalidade é menor neste grupo?”, finaliza Ramos.
Medicamento ajuda quem precisa de ventilação
Pesquisadores britânicos publicaram conclusões de testes feitos com a dexametasona numa renomada revista científica e disseram que a eficácia do medicamento “depende da escolha de uma dose certa, no momento certo, no paciente certo”.
Para 2.104 pacientes hospitalizados, foram dadas, diariamente, seis miligramas da substância por 10 dias, enquanto outros 4.321 não receberam o medicamento.
Após 28 dias, os resultados foram analisados. Entre os pacientes em ventilação mecânica, a taxa de mortalidade dos que usaram a medicação foi de 29,3%, comparado aos 41,4% que não a usaram.
Ou seja, o grupo que teve a dexametasona administrada em seu tratamento com ventiladores registrou uma redução de 29% da mortalidade.
O principal cientista americano em relação ao combate ao coronavírus, Anthony Fauci, alertou que a dexametasona não deve ser prescrita muito cedo, logo que uma pessoa ter sido infectada.
“Não teve efeito, senão talvez uma possível piora do quadro desde o início. Isso é perfeitamente compreensível com o fato de saber que, no início da infecção, você precisa do sistema imunológico para combater o vírus”, disse.
De fato: em pacientes que recebiam oxigênio, mas com menos tratamentos invasivos, o benefício foi menor — 23,3% tratados com dexametasona morreram, enquanto 26,2% dos que não usaram faleceram.
O estudo mostrou que nenhuma eficácia foi comprovada ao grupo que não precisou receber oxigênio desde que começou o tratamento.
Nesta categoria, 17,4% dos que fizeram uso do esteroide morreram, em comparação aos 14% que não o receberam.
Não à toa, as pesquisas brasileiras, com participação de hospitais do Espírito Santo, só testaram pacientes graves, que precisavam de respiradores, em UTI – um sinal de corroboração de tendência do tratamento da doença com o corticoide dexametasona.
SAIBA MAIS
O que a pesquisa testou?
- Os efeitos de um corticoide chamado dexametasona no tratamento de pacientes contaminados com a Covid-19 e que estejam internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI).
Por que esse medicamento foi escolhido?
- Segundo médicos, a Covid-19 libera uma tempestade inflamatória no organismo e atinge sobretudo os pulmões.
- A dexametasona tem efeito anti-inflamatório, que atua na resposta a esse causador da doença.
Quantas pessoas foram testadas?
- A pesquisa reuniu outros hospitais do Brasil, além de capixabas, como o Hospital Evangélico de Vila Velha e o Dr. Jayme Santos Neves, na Serra.
- Não houve divulgação de quantas pessoas foram testadas no Espírito Santo, mas sabe-se que foram 299 no País inteiro.
Como foram os testes?
- Ocorreram há três meses. Os testados foram divididos em dois grupos: o de controle – que não receberam dexametasona – e o experimental, que tomaram o medicamento por 10 dias seguidos. Não foi informada a quantidade.
- Mas estudos britânicos, a nível de comparação, receitaram seis miligramas da substância.
Quais os impactos do teste?
- Será possível saber se o medicamento, de fato, diminui o tempo de entubação, ajuda no fim da dependência da respiração mecânica ou, até mesmo, diminui o risco de morte.
Quem foi testado?
- Pacientes com mais de 18 anos, que estivessem respirando por meio de ventilador mecânico, em UTI, em estado grave, que tenham passado por análises da gravidade e foram autorizados pelos responsáveis. Também era necessária a comprovação da contaminação por Covid-19.
- Ficaram de fora as grávidas, lactantes, menores de idade, casos leves, estáveis, pessoas que já tomavam corticoide ou apresentaram histórico de alergia.
Fontes: Médico Gedealvares Francisco de Souza, intensivista e pesquisador do Hospital Evangélico de Vila Velha; doutora em genética Ana Carolina Ramos, gerente do Centro de Ensino e Pesquisa; e Pesquisa AT.
