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Covid: Após 55 dias internada, mãe que teve parto de emergência encontra o filho

Aos 30 anos, a jornalista Larissa Maestri já escreveu e publicou inúmeras histórias de lutos, lutas e superação, e nos últimos meses muitos desses ...

Covid: Após 55 dias internada, mãe que teve parto de emergência encontra o filho
- Após 55 dias internada, Larissa Maestri, que teve parto de emergência, encontra o filho

Última atualização

Após 55 dias internada, Larissa Maestri, que teve parto de emergência, encontra o filho (Foto: Elisa Rangel)

Aos 30 anos, a jornalista Larissa Maestri já escreveu e publicou inúmeras histórias de lutos, lutas e superação, e nos últimos meses muitos desses relatos foram por causa do novo coronavírus. Ouvir famílias e pacientes que superaram essa doença ou perderam a batalha para a Covid, infelizmente, era pauta corriqueira para a repórter do Jornal A Tribuna e do Tribuna Online.

Em março deste ano, Lila, como ela é conhecida, entrou na lista de pessoas que lutam pela vida após contraírem essa doença.
Grávida de sete meses, a jornalista foi diagnosticada pela segunda vez com o novo coronavírus. Com muita falta de ar e dores, foi internada.

Durante 55 dias viveu sua maior batalha: a luta pela vida. Mas ela tinha um alvo diferente, que a fez guerrear ainda mais para sair do hospital: o pequeno João Miguel.

João Miguel no colo da mãe, Larissa Maestri: o primeiro colo (Foto: Elisa Rangel)Larissa estava desacordada quando foi submetida à cesárea, um parto de alto risco, não viu o nascimento do filho. Ficou com 75% do pulmão comprometido pelo coronavírus. Foi duas vezes intubada, fez tratamento com 12 antibióticos e, dos 55 dias de internação, passou 48 deles em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

Na última quarta-feira (12), por volta de 14h, ela recebeu alta. Seis horas depois, muito emocionada e sem conseguir conter as lágrimas, Lila conheceu e segurou pela primeira vez o filho. O encontro foi em casa, em Jardim da Penha, Vitória, rodeado da família – mãe, avó e pai do bebê. Não houve como conter o choro, de emoção, não mais de dor e sofrimento.

Os primeiros sintomas e a internação

Lila conta que em dezembro do ano passado contraiu o novo coronavírus e, em home office, chegou a ficar afastada do trabalho. Ela tem uma doença pré-existente chamada neuro mielite optica de devic e já recebia atenção especial no pré-natal.

“Eu estava com quatro meses de gravidez e nem precisei ficar internada porque só tive dor no corpo e dor de cabeça. Fiquei em casa, me recuperando. Em março, tudo foi diferente, muito mais forte”, relatou.

No dia 2 de março, já com 32 semanas de gestação, a jornalista começou a ter os sintomas da doença. “Tive febre alta, dores, calafrio, falta de ar, perdi o olfato e o paladar. Muito difícil. De uma hora para a outra não sentia o cheiro e o sabor de nada. Cheguei a almoçar e só perceber ao final que não havia sentido o sabor da comida”, disse.

O pequeno João Miguel, já em casa (Foto: Elisa Rangel)Na madrugada do dia 17 de março, em casa, o quadro de saúde da Larissa piorou. Ela explica que, pelo detalhamento médico, nessa data ela já estaria livre do Covid-19, mas poderia estar com sequelas da doença.

“Estava com muita falta de ar, mas como minha barriga já estava grande, pensava que podia ser isso também. Minha saturação estava muito baixa, em torno de 82 e 88%. Na mesma hora acionei os médicos que me acompanhavam na gravidez e a orientação foi ir para o hospital”, relembrou.

Inicialmente, Larissa foi para um hospital particular em Vitória, onde seu obstetra, Fernando Guedes, chegou para verificar o bebê e ela. No mesmo dia, à tarde, ela precisou ser transferida para um outro hospital e o médico explicou que seria preciso fazer o parto de emergência porque o bebê estava em sofrimento fetal.

“Ele voltou algum tempo depois dizendo que haviam conseguido uma UTI para o meu filho e para mim em um mesmo hospital e que, por isso, eu seria transferida novamente”.

Lila foi levada de ambulância para o Hospital Metropolitano, na Serra, e logo conduzida ao centro cirúrgico.

“Eu vi minha mãe na recepção do hospital, chorando muito, minha doula, uma amiga… todos estavam dizendo ‘tenha força’, ‘a gente está com você’. Meu namorado segurou a minha mão e foi ao lado da maca, que estava sendo empurrada às pressas. Foi um momento muito forte porque você não sabe o que vai acontecer. Eu ouvi a equipe médica e de enfermagem dizer que meu caso era muito grave”, relatou.

“Logo que acordei do coma, perguntei: ‘Cadê meu bebê’”

No centro cirúrgico, sem o namorado e sem a família, pelo risco que tinha, Lila recebeu anestesia geral. João Miguel nasceu às 20h50, com 1,846 quilos, e foi levado direto para a UTI.

Larissa Maestri encontra o filho, João Miguel, pela primeira vez: choro e emoção (Foto: Elisa Rangel)“Eu apaguei e só acordei três dias depois, dia 20 de março. Lembro que, logo que acordei do coma, coloquei a mão na minha barriga e perguntei: ‘Cadê meu bebê’. Eu não estava mais com barrigão de grávida, mas não vi meu bebê. Fiquei muito tensa, e chamaram uma médica, que me explicou tudo o que havia acontecido e disse que meu filho estava na UTI e estava sendo muito bem cuidado. Ela me acalmou muito porque é um sentimento muito difícil”.

Ainda sem poder ter contato com o filho, por estar em isolamento em uma UTI Covid, Larissa lutava para se restabelecer, com medicação forte e fisioterapia, enquanto o namorado acompanhava diariamente a evolução do pequeno João Miguel.

“Teve um dia que a médica fez uma surpresa e me mandou olhar para a porta do leito da UTI. Quando vi, era o Rodrigo, todo vestido com aquelas roupas de proteção, da cabeça aos pés. Ele tinha só cinco minutos para ficar comigo e me contou tudo o que podia do meu filho. Foram cinco minutos de muita emoção porque eu não estava vendo ninguém da minha família. Chorei muito”, disse Larissa.

No entanto, a situação da jornalista não melhorava e ela chegou a contrair uma bactéria no pulmão, a pseudomona. “Começou a piorar, até muito por causa da ansiedade. No período em que fiquei internada, foram 12 antibióticos”, conta ela.

Três dias depois, sem forças para nem mesmo fazer a fisioterapia, uma médica da UTI avisou a Larissa que precisaria novamente intubá-la.

“Eu estava com 75% do pulmão comprometido e foi um processo muito difícil porque eu não deixava o respirador trabalhar por mim. Os médicos contaram que era como se eu não quisesse sair dali naquela hora”, disse. O novo coma durou quatro dias, até o dia 27 de março.

Experiências de paz durante o coma

Durante o período em que ficou “apagada” no coma, a jornalista revela que teve várias experiências marcantes. No primeiro período de coma, ela conta que teve um encontro com Deus e também com o avô, um tio e um amigo, todos já falecidos.

“Meu avô falava o tempo todo: ‘Você vai voltar, você vai voltar’. E eu sentia a mão de Deus segurar forte a minha mão. Foi uma experiência de paz, de calma, e com uma mensagem que eu precisava voltar. Tinha muita gente orando por mim e Deus me deu forças para voltar”, revela Larissa.

Já na segunda vez em que precisou ser intubada e colocada em coma, a jornalista relembra que a experiência foi completamente diferente.

“Eu fiquei extremamente agitada, os médicos me disseram que era difícil me manter no respirador. Acredito que era eu lutando para voltar e ficar com meu filho e minha família”, disse.

Após sair do coma, a equipe médica precisou fazer a traqueostomia em Larissa e, no dia 4 de abril, começaram o processo de “desmame” de equipamentos para respirar. Nesse período de internação foram vários processos e muita fisioterapia, até ela conseguir ficar bem apenas com o cateter nasal com oxigênio, o que a possibilitaria receber alta.

Larissa Maestri recebeu alta no dia 12 de maio (Foto: Elisa Rangel)“Eu ficava achando que iriam colocar meu filho ali no quarto comigo, para eu ficar com ele ao meu lado, mas isso não podia acontecer por causa dos riscos. Foram dias muito difíceis, mas também de muita gratidão porque eu passei a receber visitas e, ao saber que tinha tanta gente orando por mim, isso me dava forças”, disse.

O pequeno João Miguel teve alta no dia 30 de abril, 44 dias após o nascimento, e estava recebendo todo carinho e atenção do pai em casa. Larissa, depois de 48 dias na UTI, no dia 5 de maio, foi para a enfermaria e depois para o quarto. Na última quarta-feira, 12 de maio, recebeu alta.

No corredor do hospital, de frente para as equipes médica e de enfermagem, ela agradeceu muito por toda a dedicação dos profissionais.

“Muitas vezes agradecemos apenas ao médico, mas a recuperação é um trabalho de todos. Quantas vezes eu estava chorando na cama, chegava a dizer que não queria receber visitas, e aparecia uma enfermeira, segurava a minha mão e ficava ali comigo por 10 minutos para me ajudar a sair daquele momento. A minha fala na saída do hospital foi de alegria, de gratidão, pela minha força e pelo trabalho de todos, do profissional da higienização ao médico. Por isso é preciso, sim, bater palmas”, declarou.

Larissa Maestri passou 48 dias na UTI e bilhete com a marca do pezinho e da mãozinha do bebê deram força (Foto: Acervo pessoal)

Em casa, apoio da mãe, da avó e de enfermeira

O processo de recuperação da Larissa vai se estender por mais algum tempo. Com tanto tempo parada em um leito de hospital, perda muscular e a dependência de oxigênio são consequências, mas ela está contando com o apoio da mãe e da avó, assim como de uma enfermeira.

“Lila e o João Miguel são um verdadeiro milagre. Agora é retomar as forças para voltar à rotina. Vamos ter que ter cuidado com a Larissa principalmente por causa do desmame com o oxigênio, porque ela está dependente do oxigênio. Precisa usar, por exemplo quando se emociona”, explicou a enfermeira Juliana.

A profissional ainda completa dizendo que a rotina será de muitos exercícios. “Aos poucos Larissa vai recuperar as forças, com exercícios respiratórios, que ajudam a expandir o pulmão. A fisioterapia vai ajudá-la a recuperar a massa muscular para poder voltar a andar de forma independente, sem apoio”, detalhou.

Nesse primeiro momento, enquanto a jornalista se fortalece fisicamente, o bebê vai ficar na casa do pai, mas diariamente vai para a casa de Larissa receber o carinho e os cuidados da mãe.

Até maquiagem para ver o filho pela primeira vez: “Nas nuvens”

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“Deus cumpriu a promessa. Muita gente orou, e Deus cumpriu”. Por volta de 20h30 da última quarta-feira, poucas horas após receber alta do hospital, Larissa estava toda arrumada, inclusive maquiada, para finalmente conhecer o filho e pegá-lo no colo.
“Me arrumei toda, até com maquiagem. Eu estava nas nuvens. Eu fiquei tão feliz, que minha saturação foi a 98%”, comemorou Larissa.

O pai do bebê chegou com João Miguel no bebê-conforto e logo que anunciou que estava chegando ao quarto, onde Larissa aguardava sentada com o oxigênio no nariz e acompanhada da mãe, a jornalista não segurou o choro.

“Como é que pega? Como é que pega?”, perguntou chorando Larissa ao namorado, enquanto recebia o filho pela primeira vez nos braços.

“Ei minha vidinha, ei minha coisa linda, é a mamãe! Oi meu amor, mamãe te ama que está com você aqui agora”, repetia Lila a todo momento, em meio a muitos beijos e carinhos.

“Meu filho lutou muito, ele é um guerreirinho. Lutamos juntos. Quantas vezes, na hora de um exame doloroso que me submetiam de madrugada, eu olhava para uma fotinho dele que colocaram na parede da UTI e pensava: ‘Essa dor vai valer a pena pelo meu filho’. Valeu. Deus nos abençoou e agora estamos juntos”, finalizou a jornalista.


Médico admite: “Acreditávamos que daquela noite ela não passaria”


“Larissa teve um caso muito grave de Covid, com um comprometimento pulmonar muito grande e com uma evolução ruim muito rápida.

A opção por realizar a cesariana foi para descomprimir o pulmão e também para tentar evitar que o bebê tivesse a transmissão do vírus para ele. Apesar da prematuridade, era um bebê com bom tamanho, bom peso. Ele nasceu bem, em ótimas condições.

Mas a Larissa ficou muito grave, realmente muito grave. Quando operamos a Larissa, nós acreditávamos até que daquela noite ela não passaria. Ela estava realmente muito grave.

O trabalho da equipe mais do que nunca teve as mãos de Deus em cima de mão de cada pessoa que passava pela Larissa e Deus falava assim: ‘Volta que você tem um filho para criar’.

A Larissa até foi apresentando uma melhora, chegou a ficar sem respirador por alguns dias, mas depois agravou de novo com uma nova infecção secundária. Nesse momento, já havia passado o tempo do Covid, ela já tinha se livrado do vírus, mas as comorbidades e as sequelas provocadas pelo vírus complicaram o quadro clínico dela e fizeram com que ela ficasse mais de 50 dias no hospital.

Larissa é uma guerreira, teve uma vontade de viver muito grande, teve uma vontade de estar perto desse filho muito grande. E ela teve essa vontade desde o primeiro dia que esteve no consultório. É emocionante ver que ela venceu o Covid e ela venceu mesmo, lutou muito”.

Fernando Guedes, médico ginecologista e obstetra
 

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