Há pouco mais de um ano, ninguém imaginava que teria a vida revirada por um vírus desconhecido. Tantas mudanças, sem perspectiva de quando tudo vai acabar, têm mexido com a mente das pessoas.
Ansiedade generalizada, depressão, pânico e até fobia social são alguns dos transtornos que têm sido comuns. Com isto, especialistas já consideram que manter a saúde mental será o maior desafio das famílias após a pandemia.
Para o psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, a situação atual é completamente fora do comum a tudo que as pessoas já viveram. Ele reforça que, além do isolamento, muitos também estão enfrentando o medo e as inseguranças.
“Temos insegurança em como vão ficar nossas relações sociais, relações de trabalho, relações familiares, enfim, nós temos uma mudança de padrão de vida, de forma de viver, de se relacionar e de viver em comunidade. E, como somos seres sociais, com certeza, isso vai impactar na nossa saúde mental”.
A psiquiatra e diretora-secretária da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes), Letícia Mameri, pontua que os médicos já previam, no pós-Covid, um aumento do adoecimento mental.
“Antes da pandemia, o Brasil já era o país mais ansioso do mundo, e o segundo em caso de depressão. A situação já era ruim. Aliado a isso, temos falta de psiquiatras na rede pública”, observa.
Para a psiquiatra e psicogeriatra Maria Benedita Reis, as pessoas estão vivendo traumas que se assemelham aos de guerra.
“As famílias foram devastadas. Elas perderam entes queridos, trabalho, qualidade de vida e, muitas vezes, bens e esperança. Com as crianças e jovens fora das escolas, tudo isso modificou as relações familiares. Essa reconstrução vai levar um tempo”, diz Maria Benedita.
Para o psiquiatra Jairo Navarro, além da saúde mental, cuidar da saúde como um todo, também será um grande desafio.
“Acredito que a pandemia vai durar mais algum tempo, e as sequelas diretas e indiretas também. Tanto tempo as pessoas passando por esse estresse, toda essa privação, acredito que teremos ainda um bom tempo de sofrimento e reconstrução”, avalia.
Pizza em família
Encontro toda sexta
Para manter a família mais unida e ter momentos de boa conversa, a empresária Vanessa Cabral, de 48 anos, e o marido, Geber Cabral, de 55, recebem toda sexta-feira, para o dia da pizza, as filhas Géssica, 29, e Raquel, 24, com os genros Marcus, 31, e Rafael, 29.
Vanessa conta que o hábito das reuniões veio com a pandemia. “Agora, temos um dia para nos reunir. Cantamos, comemos e jogamos. Passamos a valorizar ainda mais esse momento, porque não sabemos como será o dia de amanhã”.
Emoções podem levar a doenças
Falta de ar, taquicardia ou dor de cabeça. Para muitas pessoas, esses sintomas podem até ser confundidos com Covid-19.
Porém, em alguns casos, eles são causados pelo fator emocional. São as doenças psicossomáticas, que apresentam sintomas físicos, mas têm origem em problemas emocionais. Com a pandemia, esses casos estão aumentando ainda mais, segundo especialistas.
Uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) mostrou que 82,9% dos psiquiatras perceberam o agravamento de quadros de saúde mental em seus pacientes devido à pandemia.
A psiquiatra e psicogeriatra Maria Benedita Reis explica que uma pessoa vulnerável terá mais doenças psicossomáticas. Na pandemia, segundo ela, a vulnerabilidade veio com o medo.
“É comum as pessoas terem um quadro de falta de ar achando que estão com Covid, mas tudo causado pela ansiedade. O quadro psicossomático é o corpo falando por meio de um sintoma. Melhorando o transtorno ansioso, o quadro psicossomático melhora”.
O psicólogo Clayton Richardelle, da Green House, observa que, em crises como a da Covid-19, episódios de manifestações somáticas podem aumentar.
“As emoções incontroláveis e os sentimentos negativos podem desencadear desequilíbrios mentais, que podem sobrecarregar as funções orgânicas do corpo. Isso pode acontecer por diversas questões, especialmente aquelas ligadas às experiências ruins e traumáticas não superadas”.
Segundo o psiquiatra Jairo Navarro, quando a pessoa tem um transtorno de ansiedade ou estresse muito grande, o corpo acaba disparando hormônios e feixes nervosos. “O cérebro manda informações para o corpo, ou vice-versa, que interpreta de maneira errônea ou exagerada. Um estímulo, que seria neutro, passa a ser doloroso, quando a pessoa está ansiosa”.
De acordo com a psicóloga Monique Nogueira, as emoções precisam ser elaboradas de algum modo para que não se somatizem.
“O sintoma físico, muitas vezes, é ‘nosso amigo’. É como a febre, que sinaliza uma infecção. O sintoma
faz a pessoa dar atenção a ela mesma. É algo na vida que está em desequilíbrio no campo emocional e
psíquico e precisa ser cuidado para não ocorrerem danos maiores”.
