Os casos de pessoas que tomaram as duas doses de vacinas e mesmo assim acabaram contraindo a Covid-19 têm deixado a população receosa com a real efetividade da Coronavac, principalmente em idosos acima de 80 anos. Médicos garantem, no entanto, a confiabilidade da proteção do imunizante.
Especialistas esclarecem que nenhuma vacina oferece 100% de proteção, por isso a necessidade de ampliar a cobertura vacinal da população para reduzir a transmissão comunitária do vírus.
A professora da Ufes e epidemiologista Ethel Maciel ressalta que, enquanto não houver um avanço da cobertura vacinal, é normal que a efetividade seja menor em relação à eficácia apresentada nos testes.
“Eficácia é a análise de proteção em ensaio clínico (testes), já a efetividade é a eficácia no mundo real, quando a vacina é dada para a população em geral, com pessoas com comorbidades e outras doenças que não estavam dentro do estudo controlado de testes”.
Ethel ressaltou o resultado do estudo divulgado pelo Butantan feito na cidade de Serrana (SP), que teve cobertura vacinal de 95,7% da população com as duas doses da Coronavac, e que reduziu os óbitos em 95%, hospitalizações em 86% e os casos sintomáticos em 80%.
Para quem tomou as duas doses, a orientação da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) é manter as medidas de prevenção como utilização de máscaras, distanciamento social e higienização das mãos.
Segundo a infectologista Martina Zanotti, é normal que mesmo após a imunização completa (tomar as duas doses da vacina), pacientes possam contrair a doença e até mesmo evoluir para casos mais graves e até morrerem.
“Vacina é uma estratégia de controle de nível coletivo, não individual. A efetividade se torna maior à medida que mais pessoas tenham se vacinado com as duas doses, porque assim estamos evitando a circulação do vírus”.
Para a infectologista Ana Paula Burian, qualquer mudança no protocolo de vacinação precisa de estudos comprovados. “Medicina é baseada em evidências testadas. Qualquer tese que indique necessidade de uma terceira dose da Coronavac em idosos ou complementar a imunização com outra vacina não passa de especulação”, disse.
Tire suas dúvidas
Qual é a diferença entre eficácia e efetividade?
A eficácia é a taxa de proteção da vacina observada nos estudos clínicos, ou seja, entre os voluntários participantes da pesquisa. A efetividade é a proteção observada “na vida real”, ou seja, o desempenho do imunizante quando ele é usado em massa na população em geral.
A amostra estudada nos testes clínicos é representativa e já indica a eficácia geral do produto, mas os estudos de efetividade são importantes justamente porque têm o poder de mostrar o desempenho específico da vacina em diferentes grupos populacionais, como os idosos.
É possível uma pessoa que tomou as duas doses da Coronavac ou de qualquer outra vacina contrair a doença com sintomas graves e até morrer?
Sim. O número, no entanto, é extremamente baixo: uma morte a cada 25 mil pessoas que tomaram as duas doses do imunizante, o que equivale a 0,004% dos vacinados, segundo dados do Ministério da Saúde.
Para especialistas, esses números evidenciam que a vacinação é uma proteção coletiva e que a vida não poderá “voltar ao normal” a não ser que grande parte da população esteja completamente vacinada.
Esses índices diferem dos encontrados nos testes clínicos?
Os testes clínicos da Coronavac no Brasil demonstraram uma eficácia geral de 50,7%, podendo chegar a 62% se o intervalo entre a primeira e a segunda dose for igual ou superior a 21 dias. Na maioria das faixas etárias, portanto, a efetividade em idosos foi superior ou muito similar à eficácia verificada nos estudos clínicos.
Existe a necessidade de revacinação?
A discussão sobre a necessidade de revacinação de pessoas com 80 anos ou mais ainda neste ano foi levantada por um estudo divulgado no último dia 21, que apresentava uma menor efetividade da Coronavac em idosos mais velhos.
O estudo preliminar, realizado pelo grupo Vaccine Effectiveness in Brazil Against Covid-19 (Vebra Covid-19), que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Global de Saúde de Barcelona, mostrou que a taxa de proteção da vacina cai conforme a idade, e varia de 61,8%, na faixa etária dos 70 aos 74 anos, a 28%, acima dos 80 anos. No grupo entre 75 e 79 anos, o índice encontrado foi de 48,9%.
A pesquisa examinou dados de quase 15,9 mil idosos brasileiros para verificar a proteção da vacina chinesa contra a doença. O trabalho, realizado pelo grupo Vebra Covid-19, foi divulgado em 21 de maio na forma de “pré-print”, ou seja, ainda sem revisão de outros especialistas.
Qual é a efetividade da Coronavac apresentado no estudo feito na cidade de Serrana (SP)?
A cidade, localizada a 315 km de São Paulo e cuja população estimada é de 45.644 habitantes, foi palco de um experimento do Instituto Butantan e contou com a participação de 27.150 pessoas, todas imunizadas com duas doses da Coronavac.
O estudo teve cobertura vacinal de 95,7% da população geral da cidade com as duas doses da Coronavac, e reduziu o número de óbitos em 95%, as hospitalizações em 86% e os casos sintomáticos em 80%. Segundo especialistas do Butantan, não há dados que justifiquem essa decisão de revacinação, e defendem que agora é o momento de ampliar a parcela da população imunizada.
Qual é a orientação para quem já tomou ou vai tomar a Coronavac?
Para todos os públicos, especialmente para os mais velhos, é essencial manter as medidas protetivas contra o novo coronavírus, como uso de máscara, higiene das mãos e distanciamento social.
Sou idoso, tomei a primeira dose da Coronavac. Devo manter os planos de tomar a segunda?
Sim. A eficácia observada nos estudos só é alcançada 14 dias depois da segunda dose. Procure a segunda aplicação na data agendada pelo posto de saúde e, se ela estiver atrasada, coloque a dose em dia assim que a vacina estiver disponível na sua cidade.
Apenas uma dose não confere proteção?
O estudo sobre a efetividade em idosos brasileiros mostra ainda que a Coronavac não conferiu nenhuma proteção com apenas uma dose, dado especialmente preocupante diante do imenso número de brasileiros que ainda não completaram o esquema vacinal. Como revelado pelo Estadão na última terça-feira, dia 18, 4,5 milhões de pessoas estão com a segunda aplicação da Coronavac atrasada no País. O estudo revela ainda que, entre o 1º e o 13º dia após a segunda aplicação, a proteção é de 18%.
Podemos cogitar a necessidade de uma vacina mais efetiva aos maiores de 80 anos?
Alguns especialistas defendem a ideia de oferecer uma dose de reforço ou uma vacina mais efetiva aos maiores de 80 anos assim que possível, mas admitem que o debate depende da disponibilidade de imunizantes.
Qual o número de idosos com mais de 80 anos já vacinados?
Segundo dados do Ministério da Saúde, ao menos 4,2 milhões de idosos acima dos 80 anos já receberam ao menos uma dose da vacina contra a Covid. A maioria tomou Coronavac.
O que sabemos sobre a mistura de doses na imunização contra a Covid-19?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda a mistura de vacinas diferentes. Ainda não há estudos definitivos sobre as possíveis consequências dessas combinações, mas uma pesquisa preliminar publicada na semana passada mostrou que a combinação das vacinas da Pfizer e de Oxford/AstraZeneca é eficaz e segura, mas os dados ainda precisam ser confirmados.
De qualquer forma, na hipótese de idosos com 80 anos ou mais serem revacinados com duas doses de outra vacina em um novo esquema vacinal, isso não seria considerado uma mistura, já que não houve combinação de imunizantes diferentes num mesmo esquema (1ª e 2ª doses).
A eventual revacinação de idosos que tomaram Coronavac é segura?
A aplicação de uma terceira dose de reforço da Coronavac não deverá apresentar problemas porque a vacina se mostrou segura e o intervalo entre a segunda e a terceira dose seria de meses. No caso da aplicação de outra vacina, especialistas dizem que é preciso validar o método, mas acreditam que também não haverá riscos pelo fato de a revacinação ocorrer meses depois do primeiro esquema vacinal com Coronavac.
Tenho 80 anos ou mais e tomei as duas doses da Coronavac. Posso procurar doses de outro imunizante?
Não. Os idosos já vacinados não têm no momento nenhuma recomendação nem autorização para receberem doses de outro fabricante. A recomendação principal às pessoas desse grupo populacional é manter as medidas protetivas contra o coronavírus.
Fonte: Instituto Butantan, Agência Estado, especialistas consultados e Pesquisa AT

