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Coronavírus

“Sou soldado ferido e quero voltar à guerra”, disse médico capixaba afastado do serviço por ter sido infectado com o vírus

“Infelizmente, na guerra contra o inimigo invisível, eu fui um dos soldados atingidos, mas em breve estarei de volta à guerra”.É com essa frase que ...

Médico, apesar de todos os cuidados, foi contaminado pelo coronavírus

Última atualização

Médico, apesar de todos os cuidados, foi contaminado pelo coronavírus (Foto: Divulgação)“Infelizmente, na guerra contra o inimigo invisível, eu fui um dos soldados atingidos, mas em breve estarei de volta à guerra”.

É com essa frase que um médico, de 36 anos, que preferiu não se identificar, inicia conversa com a reportagem e confirma que na última terça-feira recebeu uma notícia que, apesar da sua formação e experiência, ninguém está preparado para ouvir: o resultado deu positivo para o novo coronavírus.

Em isolamento domiciliar, ele – que é intensivista pediátrico em um hospital particular da Grande Vitória – falou sobre a sua rotina e reforçou que, quem puder, fique em casa. “A doença é real”.

A Tribuna – O senhor é um dos casos confirmados de Covid-19 no Estado?
Médico intensivista pediátrico – Infelizmente, na guerra contra o inimigo invisível, eu fui um dos soldados atingidos, mas em breve estarei de volta à guerra.

A Tribuna – Há quanto tempo atua na medicina?
Médico intensivista pediátrico – Me formei no final de 2006, na Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo). Trabalho com terapia intensiva pediátrica desde 2011.

A Tribuna – Cuida de crianças com sintomas da Covid-19?
Médico intensivista pediátrico – Em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) qualquer quadro respiratório, que precisa de internação, acaba sendo um quadro suspeito porque as crianças têm menos sintomas que os adultos e um quadro geralmente mais brando.

A gente não teve nenhuma criança grave na UTI, mas que precisaram em algum momento de observação e esses quadros acabam se enquadrando como suspeitos. Mas, até agora, nenhum caso foi confirmado.

A Tribuna – Como essa doença surge na sua trajetória?
Médico intensivista pediátrico – Foi tudo muito rápido. Estava de folga e comecei na última sexta-feira à noite com febre alta, de 38.9º, mal-estar, dor no corpo. Tive dor de cabeça e tosse seca discreta.

A Tribuna – Estava sozinho?
Médico intensivista pediátrico – Sim. Eu moro sozinho e já estava em uma espécie de isolamento, só saindo de casa para o trabalho e vice-versa.

A Tribuna – No primeiro momento, chegou a suspeitar que pudesse ter sido contaminado?
Médico intensivista pediátrico – Em termos gerais, poderia pensar em dengue, gripe, mas no momento que a gente está vivendo e tendo contato com casos suspeitos, pensei nessa possibilidade. Aí, no sábado, procurei atendimento para coletar material, no hospital onde trabalho. O resultado chegou ontem à tarde (terça).

São dois exames que são coletados: um, que fiz pelo convênio, foi para o laboratório particular; ao mesmo tempo é coletado um outro, que é a secreção do nariz e da garganta, que vai para o Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública do Espírito Santo). Até pela demanda, o meu resultado pelo Lacen, até onde sei, ainda não saiu.

UTI de um hospital: em função do local de trabalho, médicos, enfermeiros, pessoal da limpeza  e outros profissionais de saúde correm riscos maiores de contaminação pelo vírus (Foto: Arquivo/AT)A Tribuna – Como profissional da saúde, como foi receber a confirmação?
Médico intensivista pediátrico – É um certo susto, embora já tivesse uma suspeita grande por conta dos sintomas e da minha exposição. Mas quero deixar claro que, embora tenha usado todos os equipamentos de segurança, todo o EPI (Equipamento de Proteção Individual), não me faltou nada, não teve nenhuma situação de risco exagerado.

Mesmo tomando todos os cuidados, imaginei que pudesse me contaminar porque os profissionais de saúde são os primeiros da fila mesmo. Mas quando sai o resultado você acaba tomando um certo susto, um choque de realidade, na verdade.

A Tribuna – Teve medo ou certeza de que irá vencer essa doença?
Médico intensivista pediátrico – É um misto de coisas. Por um lado vem a confiança de que tudo vai dar certo. Temos que pensar sempre que a maioria dos casos os sintomas não são graves. Mas alguns, infelizmente, têm sintomas graves. Por isso, dá um pouco de medo de que possa surgir outros sintomas de gravidade no curso da doença.

A Tribuna – Os sintomas se agravaram?
Médico intensivista pediátrico – Por enquanto não. A febre já melhorou, não tive falta de ar em momento nenhum e agora sinto um pouco de mal-estar, dor de cabeça e a tosse, que persiste. Claro que eu fico em estado de alerta o tempo inteiro, não dá para relaxar. Se tiver algum agravamento têm que procurar o hospital imediatamente.

A Tribuna – Tem alguma comorbidade?
Médico intensivista pediátrico – Sou hipertenso.

A Tribuna – Imagina onde pode ter sido contaminado?
Médico intensivista pediátrico – O fato de trabalhar em um hospital, que é um local onde circula muita gente doente, aumenta o risco, mas isso aí pode acontecer no elevador do prédio, na garagem, chegando em casa. Eu moro em prédio, e fiz esse percurso. Só saia de casa para trabalhar e voltar.

A Tribuna – Como tem sido a sua rotina em casa?
Médico intensivista pediátrico – Moro sozinho, estou isolado totalmente desde sexta. Já tinha dispensado a pessoa que fazia faxina e eu estou cuidando da casa, fazendo a minha comida. Como o resultado oficial saiu ontem (terça), vou ver com um familiar para fazer minhas compras. Vou pedir para deixar na minha porta. O lixo vou deixar para um funcionário do condomínio jogar fora. Estou isolado mesmo. É estressante, mas é tolerável. A gente tem que saber que faz parte do tratamento.

A Tribuna – Se intitula um dos soldados atingidos nessa guerra. Poderia comentar essa comparação?
Médico intensivista pediátrico – Tenho conversado bastante com o meu irmão e a nossa geração não viveu uma transformação gigante no mundo. Nossos antepassados conviveram com guerras e essa é a guerra do nosso tempo, com pessoas sem sair de casa, convivendo com incertezas. É uma guerra diferente. Na minha profissão somos preparados como se fôssemos servir na guerra, ficar na linha de frente nessa batalha para salvar vidas.

A Tribuna – Gostaria de deixar alguma mensagem às pessoas?
Médico intensivista pediátrico – A doença realmente existe, muita gente vai adoecer, a maioria vai ter sintomas leves, mas o que a gente pode fazer, independente da flexibilização ou não do isolamento, é manter todos os cuidados, de lavagem de mãos, de distanciamento das pessoas e saber que não estamos no período de férias.
Estamos enfrentando um momento delicado, que infelizmente vai durar bastante. Vamos precisar de

pensamento coletivo, muita solidariedade para poder sair dessa. Não são apenas os profissionais de saúde que vão resolver o problema. É a sociedade toda, cada um fazendo o seu papel.

DEPOIMENTO

Texto do médico nas redes sociais
 

“A vida é cheia de escolhas e suas consequências. Das melhores que eu já fiz foi a minha profissão. Não tenho nenhuma história bonita de como escolhi ser médico, nunca convivi com nenhum quando criança… Simplesmente aconteceu. Nesse caos em que estamos vivendo, eu escolhi manter minha missão e cumprir o juramento de nunca abandonar o paciente. Adoro o que faço e encaro minha profissão como uma maneira de tentar ser um ser humano menos imperfeito, e sempre darei meu máximo por ela. Infelizmente, na guerra contra o inimigo invisível, eu fui um dos soldados atingidos. Mas outros muitos continuam trabalhando arduamente para sairmos bem de tudo isso. Toda a sociedade pode e deve ajudar, se cuidando, obedecendo às regras e cobrando o próximo de fazer o mesmo. A doença é real, potencialmente grave, e se você não conhecia nenhum caso confirmado, aqui estou. Não estou com nenhum sinal de gravidade, e estou tomando os cuidados necessários. Então fica o alerta: fique em casa, se você puder. E convença quem você puder que não estamos em férias. Só vamos sair dessa com muita solidariedade, muito esforço e muito trabalho.
Eu faria tudo de novo. Missão dada é missão cumprida. O soldado está ferido, mas logo logo de volta à guerra.
”

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