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Luiz Trevisan

Mentiras reais

Vendedor num sinal, na cabeceira da Terceira Ponte, tentava cativar fregueses, todos trancados em seus veículos, obscuros por trás da película – com ...

Última atualização

Vendedor num sinal, na cabeceira da Terceira Ponte, tentava cativar fregueses, todos trancados em seus veículos, obscuros por trás da película – com medo, maioria nem abaixa o vidro – exaltando os brios de possíveis clientes. “E aí, guerreiro, salve guerreiro…”.

Conheço gente que compensa um pouco a solidão de certos dias inventando pretexto para ir numa loja bisbilhotar vitrines ou pagar alguma coisa na loteria, locais onde as novas regras do RH empresarial se fazem presente no sorriso cativante e nos íntimos tratamentos de atendentes. “Fala meu amor, sumido. O que vai levar hoje, meu bem…” Ou então, quando é do mesmo sexo, o tratamento vira um amistoso e efusivo: “Diz aí amigo (a), parceiro (a), meu caro (minha cara)”, sendo que você nunca viu aquela pessoa.

Bordões do RH agora embutem amistosas estratégias de marketing. O sorriso, junto com o “meu bem”, “meu amor”, dito assim, quase convencem. E sempre querendo te empurrar algum outro produto. Por vezes, chega a ser assédio tanta a paparicação.

Você entra numa loja para comprar um simples protetor solar, e a solícita vendedora não se cansa de oferecer outra coisa, insiste nas vantagens daquilo que não lhe interessa. Às vezes, fica difícil não levar algo mais, tamanha a insistência. É tanta “gentileza” que constrange.

Com a atual multiplicidade de gêneros e grupos sexuais, surgem novos desafios no treinamento do RH empresarial. Como atender carinhosa e intimamente, sem melindrar, aos bissexuais, trans, adeptos do pansexual ou àqueles seres assexuados? E já parou para pensar como aquela sigla LGBTQ+ não para de crescer? O sociólogo Domenico De Masi – aquele do célebre “Ócio criativo” – prevê que dentro de mais uma década as mulheres dominarão 60% do mercado de trabalho e, gradativamente, irão impor suas vontades tão negadas pelo patriarcado secular. Preparados para a vingança?

Agora, um dos seres mais estranhos das novas galerias é o skoliosexual, que é atraído por quem não se identifica nem como homem ou mulher. Há o enigmático demisexual, que só se sente atraído por pessoas com quem estabelece vinculo emocional. E o não menos exigente sapiosexual, que é seduzido pela inteligência da pessoa, independente do seu sexo e identidade de gênero. Ah, ainda nessa galeria diferenciada aparece o graysexual, cujo apetite se manifesta só muito de vez em quando. Agora, o prêmio narciso fica mesmo com o “solosexual”, aquele que não sente atração por ninguém, e se basta. Sabe-se lá como.

Taí um grande desafio: com tamanha diversidade de gênero, treinar moços e mocinhas das lojas de loteria e aquelas insistentes vendedoras que aparecem em bandos, embora seja apenas uma do outro lado do balcão. Pois é, inventaram a medusa da loja.

E outro dia, vendedor num sinal, na cabeceira da Terceira Ponte, tentava cativar fregueses, todos trancados em seus veículos, obscuros por trás da película – com medo, maioria nem abaixa o vidro – exaltando os brios de possíveis clientes. “E aí, guerreiro, salve guerreiro…” Alguns até se acham mesmo, acenam, jogam moedas. O fake também está nas ruas, não existe somente nas redes sociais.

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